Há shows a serem assistidos e outros a serem experimentados. O Kraftwerk, visto ao vivo em Leipzig, durante a Multimedia Tour, pertence ao segundo grupo. Não é um show convencional, é um encontro silencioso entre som, imagem e memória, onde cada detalhe parece existir exatamente onde deveria estar.

Desde o início, criou-se uma sensação curiosa: estar diante de algo absolutamente controlado e, ainda assim, profundamente humano. As batidas precisas, os sintetizadores limpos e as projeções geométricas criam um ambiente quase clínico. Entretanto, é impossível não sentir emoção ao reconhecer melodias que atravessaram décadas e moldaram a música eletrônica como a conhecemos hoje.

Não há discursos, grandes gestos ou interação direta com o público. Estiveram em um palco com pouca luz, usando uniformes com luzes led. E isso, curiosamente, aproxima. O Kraftwerk não pede atenção, mas exige presença. Em faixas comoAutobahn e ‘Computer Love‘ foi possível observar, para além do proscênio em si, o público ao redor: pessoas de diferentes idades, completamente absorvidas, algumas com os olhos fechados e outras apenas acompanhando cada imagem em uma espécie de silêncio respeitoso.

A experiência visual da Multimedia Tour amplia a música sem competir com ela. As imagens não explicam, sugerem. Funcionam como um espelho daquilo que sempre esteve ali: a relação entre humanos e máquinas, movimento, repetição e progresso. Ainda que com um alerta para as armadilhas ao redor.

As letras do grupo, formado em 1970, ainda soam contemporâneas e verdadeiras. Em vários momentos, foi propiciada uma sensação como a de se estar dentro de uma galeria de arte sonora, onde o tempo desacelera e a atenção afina.

Revisitar clássicos passados como ‘Tour de France’, ‘Radioactivity’, ‘Die Roboter’, ‘Autobahn’, dentre outros, despertou emoções a quem acompanha a banda já de longa data. Após décadas, poder apreciar esses mesmos sons assim só prova o quão atemporais eles são. Outro momento muito tocante da performance foi quando o falecido músico japonês Ryuichi Sakamoto foi homenageado com um trecho de um encontro que tiveram em 1981. Pessoas como Ryuichi se vão, mas deixam todo um legado.

Essa foi a segunda oportunidade de acompanhá-los. A primeira aconteceu em São Paulo, em 2012, durante o festival Sònar. E o que mais marcou foi perceber como o Kraftwerk continua atual sem tentar ser moderno. Não há tentativa de atualização forçada, remix ou espetáculo inflado. Tudo é contido, preciso e essencial. Talvez seja justamente por isso que funcione tão bem. Nunca correram atrás do futuro, simplesmente o construíram.

É difícil imaginar a música de hoje sem o Kraftwerk e sua forma de criar som ao colocar máquinas e loops eletrônicos no âmbito da música pop mudo afora. Muito do que ouvimos atualmente, do hip-hop ao techno, nasceu dessas ideias. Não apenas influenciaram outros artistas, mas criaram uma nova forma de se fazer música; além de como são produzidas, tocadas e consumidas.

Em 2016, a banda alemã foi classificada pelo The Guardian como “mais influentes que Beatles” e tal afirmação segue em debate até hoje. Claro, cada uma com a sua importância dentro de seus nichos específicos. Porém, o Kraftwerk ajudou a construir a base da música moderna, digital e eletrônica. Eles pensaram a música como sistema, como ritmo e como tecnologia, exatamente como ela funciona hoje. Se os Beatles marcaram uma era, o Kraftwerk marcou outra a seu modo.

Ao fim da apresentação, a atmosfera era a de se ter vivido uma experiência que vai além da música. O Kraftwerk não entrega catarse meramente, mas sim uma expansão absoluta de consciência. Naquele espaço em Leipzig, por algumas horas, ficou claro que as máquinas podem funcionar, dessa maneira exímia por eles, no sublime intuito de emocionar.



Texto e fotos por Edi Fortini.

Por Edi Fortini

Fotógrafa de shows desde 2008, é também diversas outras coisas, como: 'gateira', praticante de artes marciais, bibliotecária e pesquisadora de experiência do usuário. Adora conversar sobre música, filmes, livros, a vida, o universo e tudo mais. Para segui-la no Instagram: https://www.instagram.com/fortini.photos/