Descer à Quinta da Atalaia tem toda uma atmosfera especial, pois é tempo de celebrar com camaradas inspirando força diante do avanço da extrema-direita pelo mundo. Estar “atento e forte” neste momento em que o ódio xenófobo tem se espalhado como pestilência na Europa, se faz necessário.
Além disso, a luta para cessar com o avanço do sionismo colonialista, fascista e genocida encabeçado por Benjamin Netanyahu, também está na ordem do dia. ‘Apadrinhado’ pela cúpula militar dos Estados Unidos através da OTAN, o primeiro-ministro israelense segue aniquilando crianças, mulheres e demais civis na Faixa de Gaza.
Deste modo, a adesão de milhares que compunham o público do evento e clamavam por “Palestina livre” foi o que deu o tom maior nesta Festa do Avante!
Outro momento impactante foi durante a apresentação da cantora e compositora Bia Ferreira, que dedicou o tema ‘A Conta Vai Chegar‘ (do álbum Faminta, lançado em 2022) para Cláudia Simões, mulher preta e mãe espancada por policiais na grande Lisboa, depois de terem sido chamados por um motorista sob queixa de que a sua filha não tinha o bilhete para o transporte público, uma criança que na altura tinha apenas oito anos de idade.
Bia pediu justiça por Simões, reforçando o necessário e constante combate contra o racismo.
Do mesmo modo, performances que também marcaram muito foram da lendária banda punk brasileira Garotos Podres e da emergente e talentosíssima artista portuguesa Ana Lua Caiano.
O quarteto brasileiro, liderado por Mao (no vocal), e, acompanhado por Rinaldi (na guitarra), Uel (no baixo) e Negralha (na bateria), trouxe um show repleto de clássicos e colocou a multidão a se mexer.
Pontos mais altos aconteceram logo quando tocaram ‘Garoto Podre‘ do antológico Com a Corda Toda (de 1997) e tiveram Johnnie (membro das bandas Simbiose e Rosa Sparks) no suporte, depois, em ‘Avante, Camarada‘, obviamente a plateia empolgadíssima subiu o volume e cantou em uníssono esse som da camaradagem comunista.
Mao voltou-se aos seus ouvintes em outra parte comovente, dizendo que ‘Grândola, Vila Morena‘ (originalmente composta pelo músico português José Afonso) não é mais uma canção exclusivamente portuguesa e sim um hino internacional de resistência.
A música entoou o início da revolução que pôs abaixo a mais longa ditadura da Europa com a queda do Estado Novo em Portugal no dia 25 de Abril de 1974.
Assim que ela foi tocada, a emoção tomou conta da Quinta. Vale ressaltar, aliás, que covers de Peste & Sida, com ‘Alerta Geral‘ (recebendo participação de João San Payo nos vocais), e, de Los Fastidios, com ‘Antifa Hooligans‘, cativaram.












Já Ana Lua Caiano fez a sua performance no Auditório 1° de Maio de maneira muito competente e direta. Com seus tambores, midi-controllers, pedal de loop e voz impactante a esplendorosa musicista, que concilia MPP (Música Popular Portuguesa) com eletrônica e trip-hop, lotou o espaço e encantou magnificamente a todos e todas do arranque à retirada.
‘Que o Sangue Circule‘, ‘Se Dançar É Só Depois‘, ‘Vou Ficar Neste Quadrado‘, ‘Adormeço Sem Dizer Para Onde Vou‘, ‘O Bicho Anda Por Aí‘ e ‘Mão Na Mão‘ foram os sons que mais fizeram balançar os corpos ali presentes.










No mais, atuações do rapper Valete e do grupo punk hc com elementos de dub, Rosa Sparks, deram a letra do que há de luta e prevalência antifascista.
Não obstante, a JCP (Juventude Comunista Portuguesa), trabalhadores da festa e participantes em geral refletiram e demonstraram imensa diversidade no âmbito da revigorada esquerda de núcleo.
Um rapaz inglês chamou, inclusive, a atenção de muitos com o seu gosto peculiar e apurado por vestidos, acessórios, indumentária e simbologias que remetem ao comunismo. Vindo de Londres, apaixonou-se pela história da Revolução dos Cravos, está estudando português e tem visitado Portugal com frequência, afirmando já garantir presença na próxima edição da festa no ano que vem.
A sustância para percorrer através dos numerosos espaços e exibições da festa, veio mais uma vez da deliciosa moqueca do Pavilhão dos Imigrantes, local ímpar no recinto, sempre com vibração aprazível e acalentadora, que neste ano homenageou o grande líder revolucionário, Amílcar Cabral.


















Por fim, o comício reafirmou e elucidou pontos importantíssimos e urgentes à classe trabalhadora que permeia a base da pirâmide social atual.
João Luís Silva, membro do Secretariado e da Comissão Política da JCP fez uma intervenção enérgica sobre o potencial transformador do trabalho coletivo, da solidariedade e da camaradagem.
O Secretário Geral, Paulo Raimundo, por sua vez, discursou acerca da injustiça e da desigualdade que resultam de uma política que serve apenas os interesses do grande capital, porém não à maioria.
Não serve aos trabalhadores, desrespeitados, obrigados a recorrerem às vezes a até três empregos diferentes, empurrados para baixos salários, precariedade, horários desregulados, carreiras e profissões desvalorizadas.
Enfatizou que imigrantes, que passam anos a tentar regularizarem as suas situações, ficam absurdamente sujeitos a condições de trabalho desumanas e são, cada vez mais, empurrados para redes de tráfico humano.
E então finalizou com o seguinte:
“Estamos com os que procuram em Portugal uma vida melhor, estamos com os que trabalham a terra e com os que lançam as redes ao mar, estamos com os que trabalham por turnos, à noite e ao fim de semana; estamos com os pequenos empresários; com os que emigram, estamos com os direitos das crianças, com as pessoas com deficiência, estamos com os que limpam, com os que cuidam, com os que garantem o Serviço Nacional de Saúde, a educação, a segurança, a defesa, a justiça e todos os serviços, estamos com os que criam arte e cultura, com os que projetam e constroem, estamos com os que conduzem, com os que produzem, estamos com os que garantem que o País funcione, estamos com a classe operária e todos os trabalhadores, estamos com a maioria, é esta orgulhosamente a nossa opção.”



Fotos: Fernando Araújo.
