Entre os veteranos da cena hardcore de São Paulo, há uma brincadeira recorrente: ‘2014 foi o melhor ano para ser um adolescente da cena na cidade’. Naquele ano, a produtora Seven Eight Life estava em plena atividade, trazendo apresentações memoráveis de grandes nomes do estilo, como Bane, Title Fight, Judge, Excel e muitos outros.

Agora, uma década depois, a cena local ganhou um novo impulso com a New Direction Productions, idealizada por Bruno Genaro. Após anos organizando eventos no interior paulista, especialmente em Piracicaba, Genaro decidiu iniciar um projeto focado exclusivamente no hardcore. A produtora tem sido responsável por uma verdadeira revitalização da cena, trazendo desde março shows de bandas como No Warning, Angel Du$t, Suicidal Tendencies, e, até o fim do ano, será responsável por apresentações de H2O, Joyce Manor e Lionheart.

Já no último dia 27 de setembro, a marca, em conjunto com a Powerline (outra produtora importante do underground nacional) organizou uma verdadeira festa no Fabrique Club, tendo como atração principal o Gorilla Biscuits, um dos maiores nomes do hardcore straight edge, que não tocava em São Paulo desde 2014, durante o auge dos eventos da Seven Eight Life. Além da banda nova-iorquina, o lineup contou com Values Here, projeto de hardcore melódico liderado pelo lendário guitarrista John Porcell, além de bandas locais como Paura, Good Intentions, Strong Reaction e Freak Fur.

A abertura do evento ficou a cargo das bandas Freak Fur e Strong Reaction. Infelizmente, devido ao horário, uma parte do público acabou perdendo suas apresentações, já que ambas tocaram antes das 19h, o que se tornou inviável para muitos, especialmente por conta do intenso trânsito da cidade. Apesar de alguns presentes não estarem tão familiarizados com essas bandas — especialmente aqueles que costumam frequentar apenas shows de grupos internacionais — os grupos têm uma presença consolidada na cena local, realizando shows frequentes tanto em São Paulo quanto em outras regiões do estado.

Com o espaço já mais cheio por volta das 19h30, foi a vez do Good Intentions, um dos nomes mais importantes do straight edge nacional, subir ao palco para realizar o penúltimo show de sua carreira. Após mais de 20 anos de atividade, a banda decidiu encerrar suas atividades, já que os integrantes estão envolvidos em outros projetos, dificultando a dedicação necessária ao projeto. Ainda assim, o grupo abriu o show com ‘Combustível‘, seu mais recente single, lançado nas plataformas de streaming. O setlist seguiu com clássicos dos álbuns ‘Até o Fim’ (2006) e ‘Enquanto Houver’ (2013), incluindo faixas como ‘My Truth’, ‘Caminho Traçado’ e ‘Marque Essas Palavras’, com os fãs subindo ao palco para cantar junto ao vocalista André Vieland.



Encerrando o bloco de atrações nacionais, o Paura, nome tradicional do hardcore paulistano, subiu ao palco com ainda mais destaque graças ao lançamento de seu novo álbum, ‘Karmic Punishment’ (2023), que apresenta uma sonoridade mais pesada em relação aos trabalhos anteriores. Antes do início do show, o vocalista Fábio Prandini interagiu com o público de forma descontraída, jogando balas de iogurte na pista, preparando o terreno para o caos que estava por vir. O setlist trouxe uma mistura de faixas novas e antigas, como ‘Urban Decay’, ‘N.W.A (Never Walk Alone)’, ‘Level of Maturity’ e ‘The City Is Ours’. No encerramento, com a faixa ‘Time Heals No Wonder’, o ex-integrante Felippe Max fez uma breve participação nos guturais, adicionando ainda mais peso à performance. No entanto, durante todo o set, a resposta do público foi relativamente morna, especialmente se comparada à energia de quando o Paura abriu o show dos franceses do Rise of the Northstar, ocasião em que os fãs protagonizaram moshpits tão intensos quanto os que marcaram a apresentação da atração principal.




Na reta final do evento, o público paulistano teve a chance de conferir o show do Values Here, banda liderada pelo guitarrista Porcell e pela carismática vocalista espanhola Chui. Em contraste com a trajetória musical tradicionalmente mais pesada de Porcell, o novo projeto exibiu uma sonoridade surpreendentemente melódica, soando praticamente como pop. No palco, a banda exibiu uma energia vibrante, com Chui se destacando como uma frontwoman excepcional, frequentemente iniciando diálogos com a plateia sobre a importância do hardcore em sua vida. No set curto, os maiores destaques foram os singles ‘Do You Know Why?’ e ‘Will Be Tomorrow’, além de um cover de ‘Young Till I Die’ (7 Seconds), que contou com a participação de Walter Schreifels.



Após uma breve pausa, que contou com avisos de segurança e anúncios de próximos eventos da NDP, finalmente o Gorilla Biscuits subiu ao palco. A expectativa era tão grande que, antes mesmo da primeira nota, enquanto a introdução com cornetas de ‘New Direction’ tocava, o público já lançava stage dives. Quando CIV começou a cantar, o caos se instaurou na Fabrique, com a multidão explodindo ao som de faixas como ‘Stand Still’, ‘Degradation’, ‘Good Intentions’, ‘Forgotten’ e ‘High Hopes’.




Além de entregar uma performance técnica impecável, com a voz de CIV soando tão potente quanto nos discos originais, ele cativou o público com seu carisma único, deixando todos à vontade para subir ao palco e participar do show. Entre as músicas, o músico também aproveitou para transmitir mensagens conscientes, abordando temas como veganismo, a importância de combater o racismo, xenofobia, homofobia e outros preconceitos, reforçando a necessidade de manter a cena hardcore inclusiva e segura para todos.



Após percorrer praticamente todo o repertório dos dois álbuns, o Gorilla Biscuits decidiu tocar alguns covers, com destaque para ‘Minor Threat’ (Minor Threat) e ‘As One’ (Warzone), recebidos com a mesma empolgação das músicas originais. Diferente do show de 2014, Porcell não foi chamado para participar de covers do Project X, contrariando as expectativas de alguns fãs. Para encerrar com chave de ouro, CIV convidou o público a subir ao palco para cantar ‘Start Today’, culminando em uma cena surreal, com uma verdadeira onda de pessoas dividindo o microfone com o vocalista.




Com uma performance extremamente energética, o Gorilla Biscuits continua a provar que é capaz de oferecer um dos espetáculos mais incríveis da cena hardcore mundial. Já a NDP vem demonstrando que, se 2014 foi o ‘melhor ano para ser um ‘Hardcore Kid”, 2024 é, sem dúvida, o melhor ano para ser um ‘Hardcore Adult’!

Fotos – Erivan Santos e Matheus Paiva (profissional credenciado pelo site @portalmusicult, que gentilmente compartilhou seu trabalho com a Hedflow)





Texto: Guilherme Góes

Agradecimento Especial: Maria Correia (Metal No Papel/Heavy Metal Online)

Por Guilherme Góes

Estudou jornalismo na Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Apaixonado por música desde criança e participante do cenário musical independente paulistano desde 2009. Além da Hedflow, também costuma publicar trabalhos no Besouros.net, Sonoridade Underground, Igor Miranda, Heavy Metal Online, Roadie Crew e Metal no Papel.