Quando o metalcore começou a ganhar destaque na cena do rock, entre o final dos anos 2000 e o início da década de 2010, o estilo foi recebido com desdém por boa parte da ‘velha guarda’ dos headbangers. Era visto como uma tendência jovem, superficial e passageira. O visual dos músicos — frequentemente influenciado pela estética emo —, os breakdowns intensos e o uso de sintetizadores eletrônicos incomodavam os mais conservadores, que, muitas vezes por puro preconceito, deixavam de reconhecer o talento e a qualidade das bandas do gênero.
Contudo, a previsão de que o metalcore seria apenas uma moda efêmera se mostrou completamente equivocada. Mais de duas décadas depois, nomes como Bullet For My Valentine, Avenged Sevenfold e Bring Me The Horizon continuam lotando estádios ao redor do mundo e emplacando sucessos nas paradas de rock. Além dos gigantes, bandas de menor projeção internacional também seguem ativas, mantendo uma base fiel de fãs em diversos países e fortalecendo o legado do estilo.
Uma prova concreta da longevidade do estilo e da relevância dos conjuntos representantes do metalcore foi exibida como força na última quinta-feira (29), com o show do conjunto estadunidense Miss May I, na casa de espetáculos City Lights. Doze anos após sua última passagem pelo Brasil, o grupo voltou à capital paulista e lotou o clube localizado em Pinheiros em pleno dia útil. A devoção do público mostrou que a banda segue relevante na cena de ainda é amplamente admirada pelos fãs do gênero.
A abertura do evento ficou por conta da banda Into The Void, vinda diretamente de Piracicaba, no interior de São Paulo. Fundado em 2021, o grupo apresenta um deathcore de raiz, com influências claras de nomes como Chelsea Grin, Despised Icon e Burning The Masses. Isso ficou evidente em faixas como ‘Burn’, ‘Slaves’ e ‘Anxiety’, todas marcadas por riffs carregados de breakdowns, batidas do tipo stomp e vocais que transitavam entre o gutural profundo e o rasgado. O set ainda contou com solos em arpejos e explosões repentinas de blast beats — elementos característicos do estilo. Em ‘Desolation‘, o vocalista André Barrial, da banda Fim da Aurora, fez uma participação especial. Sem dúvida, o grupo entregou um som poderoso e empolgante, especialmente para os fãs das raízes mais agressivas do deathcore.

Na sequência, foi a vez do John Wayne subir ao palco — um dos nomes mais tradicionais do deathcore/metalcore nacional, em atividade desde o início dos anos 2010. Com um repertório de músicas extremamente agressivas, como ‘Aliança‘, ‘Abel‘, ‘Demasia‘ e ‘Pesadelo Real‘, o grupo incendiou o público, que finalmente começou a se entregar ao mosh característico do metalcore, marcado por movimentos curiosos como socos no ar e as famosas ‘estrelinhas’, lembrando até mesmo capoeira.
Faixas com sonoridade mais acessível, como ‘Reconectar‘ e ‘Aliança – Parte II‘, também apareceram no setlist, equilibrando brutalidade e melodia. Já na reta final, o clima de celebração tomou conta, com diversas participações especiais que empolgaram ainda mais a plateia. Daniel, do Into The Void, contribuiu com vocais em ‘Tempestade‘; Milton Aguiar, do Bayside Kings, trouxe ainda mais energia do hardcore straight edge em ‘Aliança, Pt. II‘ — chegando a se jogar no público; e em ‘Lágrimas‘, André Barriel retornou ao palco com seus vocais agressivos, encerrando a apresentação em alta. Este momento, foi, sem dúvida, um grande presente para os seguidores mais fieis.

Como já é tradição nos eventos da NDP, Bruno Genaro fez uma breve interação com o público antes da atração principal. Desta vez, o líder da produtora agradeceu a presença massiva da galera, especialmente em plena quinta-feira, e anunciou que, nos próximos dias, serão revelados dois novos shows: um de black metal e outro de hardcore tradicional.
Sob os acordes da intro ‘At Heart‘, que abre o disco homônimo de 2012, Levi Benton (vocais), Jerod Boyd (bateria), Ryan Neff (baixo) e Elisha Mullins (guitarra solo) surgiram no palco para dar início ao caos com ‘Hey Mister‘, um dos maiores singles da carreira da banda. A música, marcada pela alternância explosiva entre os guturais de Levi e os vocais limpos de Ryan, incendiou a plateia logo de cara, com coros em uníssono acompanhando o riff principal, abertura de moshpits e inúmeros stage dives.
Na sequência, vieram ‘Unconquered‘ e ‘Into Oblivion‘, representando o mais recente álbum Curse of Existence (2022). Antes de executá-las, Levi pediu para que todos ‘esquecessem as merdas que estavam rolando lá fora’ e se entregassem totalmente ao momento. Ambas as faixas mantiveram a energia nas alturas, com instrumentais densos e complexos, além da já característica dinâmica entre vocais melódicos e agressivos — uma prova de que o Miss May I continua fiel às suas raízes.
Em um novo momento de interação, Levi relembrou com carinho o último show da banda no Brasil, em 2012, no Carioca Club, ao lado de Chelsea Grin e Asking Alexandria. Pediu desculpas pela longa ausência e, para honrar a memória daquela noite, o grupo emendou ‘A Dance With Aera Cura‘, do disco de estreia Apologies Are for the Weak (2009). Com forte pegada hardcore, viradas técnicas e uso marcante do prato China, a música incendiou o moshpit. Em seguida, ‘Architect‘ — também do primeiro álbum — manteve a brutalidade, soando quase como uma faixa de deathcore, com Levi assumindo um papel ainda mais agressivo nos vocais rasgados.
Já na metade do show, Levi comentou que a banda lançou diversos trabalhos desde a última visita ao país e que, como forma de compensação, fariam uma breve viagem pela discografia. Vieram então ‘I.H.E‘ e ‘Deathless‘, do disco Deathless (2015), seguidas por ‘Under Fire‘, de Shadows Inside (2017) — esta última proporcionando um dos momentos mais emocionantes da noite, com o público cantando em peso o refrão melódico.

Na reta final, Levi agradeceu novamente o apoio incondicional dos fãs, mesmo diante das dificuldades enfrentadas pela banda — possivelmente em referência às recentes mudanças de formação —, e prometeu não demorar mais uma década para retornar ao Brasil. ‘Bleed Together‘ veio em seguida, acompanhada por um imenso wall of death, com destaque para os vocais melódicos impecáveis de Ryan. ‘Masses of a Dying Breed‘ trouxe linhas de baixo absurdamente altas, flertando com o som pesado e técnico do djent.
Para encerrar, uma sequência matadora com três das faixas mais celebradas da banda: ‘Relentless Chaos‘, ‘Forgive and Forget‘ e ‘Shadows Inside‘. Mesmo no fim do show, o público reuniu as últimas forças para pular, gritar e cantar junto até o último acorde.
Apesar do setlist relativamente curto — que poderia ter incluído mais faixas secundárias e agradado ainda mais os fãs de longa data —, o show foi um verdadeiro presente para quem esperou quase 13 anos pelo retorno da banda. Que Levi e companhia tenham sentido a força do público brasileiro e retornem com mais frequência.
Fotos — Gustavo Palma (Credenciado pelo site “Sonoridade Underground”)
Setlist
Hey Mister
Unconquered
Into Oblivion
A Dance With Aera Cura
Architect
Deathless
I.H.E.
Under Fire
Bleed Together
Masses of a Dying Breed
Relentless Chaos
Forgive and Forget
Shadows Inside
Texto: Guilherme Góes
Agradecimento Especial: Maria Correia (Heavy Metal Online / Metal No Papel)






















