O músico piauiense Sid Blues é multi-instrumentista, compositor, contador de histórias e uma figura ativa na cena underground. Com mais de duas décadas de estrada, sua trajetória é marcada por uma paixão visceral pela música e por uma entrega total aos palcos e aos processos criativos. Nesta entrevista, Sid revisita suas origens no Piauí, fala sobre as influências que o levaram ao blues e ao grunge, relembra os projetos que moldaram sua caminhada e apresenta o Muhgre — sua nova e ousada aventura musical.

Guilherme Góes || Hedflow: Olá, Sid! Primeiramente, muito obrigado por aceitar o convite. Sei que é uma pergunta clássica, mas acho importante para começar: quem é o Sid dentro e fora dos palcos? Como você se definiria como músico e como pessoa?

Sid Blues: Um personagem real multifacetado. Fora do palco, sou uma pessoa com todas as qualidades e defeitos de alguém comum; no palco, um operário da arte. Costumo dizer que levo este trabalho em cada apresentação como se fosse a última vez, porque realmente um dia será. Como pessoa e como músico não existe distinção, pois respiro música e trabalho diariamente com ela; até quando chego em casa ou em horas vagas, a música anda comigo como uma simbiose, faz parte do meu jeito de ser.

Guilherme Góes || Hedflow: Um aspecto marcante da sua trajetória é ser um músico de rock vindo do Piauí, um estado fortemente associado ao forró e à música regional. Como foi crescer gostando e tocando rock nesse contexto? Você chegou a enfrentar algum tipo de resistência?

Sid Blues: Bom, quando criança tive uma criação na qual escutava de tudo, desde músicas antigas como Nelson Gonçalves e Altemar Dutra, dentre outros; escutava forró e qualquer outra coisa que tocava no rádio. O colégio, as amizades formadas por lá e tudo o que eu já vinha acumulando sobre música foram me levando a gostar de rock ainda na minha juventude. Rockeiros sempre foram mal vistos (rs). Acho que a maior resistência veio dos meus pais em determinado momento, mas isso não mudou o rumo que já era real e sem volta.

Guilherme Góes || Hedflow: Você se lembra do primeiro contato que teve com o blues? E com rock? Teve algum disco, artista ou momento específico que acendeu esse interesse?

Sid Blues: Meu primeiro contato com o blues veio através de Jimi Hendrix. Assisti ao seu Woodstock, sendo esse o show que mais vi em toda a minha vida em vídeo, e fiquei perplexo ao vê-lo “esmerilhar” a guitarra. Ao escutar suas músicas, criei paixão pela arte dele. A partir daí, quis saber quem o havia influenciado: descobri nomes como B.B. King, entre muitos outros. Certa vez fui à casa de um amigo cujo pai tinha uma coleção de discos de blues de uma revista. Vi lá um disco de B.B. King e perguntei se ele o trocava por um CD de Pearl Jam; ele aceitou, e esse foi meu primeiro disco de blues — o qual tenho até hoje, assim como vários outros que fui adquirindo ao longo dos anos. Quanto ao rock, eu já gostava, mas a banda que me fez amar de vez foi o Nirvana. Foi através deles que quis me tornar guitarrista. Na época em que o blues entrou na minha vida, eu já tocava em banda de rock; essas são histórias do colégio.

O Nirvana conheci por meio de uma coletânea que meu irmão comprou numa banca de camelô. Foi paixão à primeira audição: quase furava o CD de tanto ouvi-lo, e ainda hoje é minha banda preferida.



Guilherme Góes || Hedflow: Hoje, você vive em São Paulo e está ativo na cena independente da cidade. Quais são as principais diferenças entre o underground paulistano e a cena alternativa de Teresina?

Sid Blues: São Paulo é pluricultural; a cena acontece em vários espaços independentes e de diversas formas. Seria cruel comparar com Teresina, mas São Paulo é uma megalópole e apresenta maior união na organização dos eventos. Teresina tem excelentes artistas, mas sinto falta dessa organização presente em SP. O potencial de lá é grande, mas a cidade vive um ciclo de desunião: para as coisas funcionarem de forma mais ampla, os artistas precisam estar mais unidos. Isso tornaria Teresina uma exportadora de bons talentos.

Guilherme Góes || Hedflow: Li que você toca vários instrumentos. Como começou esse processo? Você é autodidata ou teve alguma formação formal? Poderia compartilhar um pouco do seu método de aprendizado?

Sid Blues: Sim, sou multi-instrumentista. Comecei a tocar aos 14 anos; meu primeiro instrumento foi o violão. Sempre quis ser guitarrista, mas o amigo que me mostrou o caminho inicial ensinou-me metodologia de baixo e guitarra ao mesmo tempo, algo que se aplica a ambos. A primeira banda em que toquei fui baixista, pois já havia um guitarrista. Assim, aprendi a manusear o baixo; a guitarra veio em seguida, mas mesmo tocando baixo sempre estudei guitarra. Alguns anos depois comprei uma bateria, aprendi noções básicas e fui me desenvolvendo ao longo do tempo.

Anos depois, construí uma cigar-box — instrumento típico do blues — e aprendi a tocar com slide e afinações diferentes. Mas meu primeiro contato real com instrumentos foi na infância: meu vizinho, hoje sogro do meu irmão, tinha vários instrumentos de percussão. Íamos a um sítio com nossas famílias, e ele levava seus instrumentos. Lá aprendi a tocar ganzá, triângulo, zabumba, tantã, reco-reco, clave e tamborim. Foram muitos anos praticando nessas reuniões, e foi onde aprendi muito sobre rítmica.

Estudei em Brasília em um curso de verão de guitarra jazz/bossa e frequentei um pouco a extinta Escola de Música Adalgisa Paiva. Mas o palco foi minha maior escola: há 25 anos estou no palco fazendo esse trabalho.

Guilherme Góes || Hedflow: Ainda sobre esse ponto: como é o seu processo criativo ao compor? Vem primeiro a melodia, a letra, ou depende do projeto?

Sid Blues: Eu componho de três formas: às vezes, quando estou inspirado, crio primeiro a letra — que fica guardada — e depois desenvolvo o arranjo; outras vezes, faço o arranjo primeiro, gravo para não perder e depois escrevo a letra por cima. Por fim, às vezes realmente crio letra e riff ao mesmo tempo; geralmente é esse o processo que mais uso, pois acho que o resultado fica mais espontâneo e forte.



Guilherme Góes || Hedflow: Outro ponto interessante da sua história é sua relação com os fanzines. Como foi essa experiência? De que forma esse tipo de produção influenciou sua visão de arte e música?

Sid Blues: Quando mais jovem, as primeiras bandas que toquei seguiam rumos do punk e do grunge. Nos meus estudos sobre punk, descobri os fanzines — publicações independentes com linguagem voltada para discutir o que nos interessava, fora da grande mídia. Foi uma forma de comunicação que uniu minhas paixões por desenho, leitura e escrita.

Nos meus fanzines, sempre escrevia poemas, protestos, tinha uma coluna de indicações de discos e bandas, fazia artes, colagens e fotografias. Era muito legal; bateu uma nostalgia só de lembrar. Foi algo que me permitiu expressar tudo de forma livre.

Guilherme Góes || Hedflow: Você tem projetos em bandas de blues e grunge. Poderia nos contar um pouco sobre esses grupos, como surgiram e quais são as referências?

Sid Blues: Em Teresina, meu primeiro grupo de blues lançou um álbum homônimo chamado BR316. Também tive uma banda punk/grunge chamada Escoliose, que lançou apenas uma demo.

Em SP, meu primeiro grupo foi o Usina Elétrica, uma banda de blues-rock; compusemos várias músicas, mas não gravamos disco. Em seguida, surgiu o Aurodharma, projeto conceituado com o Martin: grunge autoral, com um disco lançado — “Cabeça do Tempo” — e estamos finalizando o segundo, “Denso”. Aguardem um disco mais visceral.

Depois do Usina, veio o projeto com meu nome artístico, Sid Blues: com financiamento coletivo, gravei um disco de seis faixas. Além disso, acompanho como músico de blues outros grupos. Minhas referências no grunge incluem Nirvana, Alice in Chains, Mudhoney, Soundgarden, Stone Temple Pilots e Pixies; no blues, Jimi Hendrix, B.B. King, Freddie King, Albert King, Albert Collins, Buddy Guy, Stevie Ray Vaughan e Eric Clapton, entre tantos outros.

Guilherme Góes || Hedflow: Recentemente, iniciou uma nova parceria com Joniel Veras no projeto Muhgre, que mistura rock, psicodélico e até elementos da música tradicional nordestina. De onde veio a ideia dessa fusão de estilos? Como foi o processo de criação?

Sid Blues: Esse disco nasceu de uma conversa feita há cerca de 14 anos e demorou para sair; fomos compondo ao longo desse tempo. Gravei parte em Teresina e o restante em SP. Eu criava os arranjos e mandava prontos para o Joniel, que desenvolvia letra e melodia. Assim, todo o processo foi colaborativo. Finalizamos as gravações e lançamos o disco em 25/05/2025; ele está em todas as plataformas. É um trabalho sem um estilo único — essa era a regra inicial — e o resultado me deixou muito satisfeito.



Guilherme Góes || Hedflow: E como tem sido a recepção até agora, tanto do público novo quanto da galera que já acompanhava seus trabalhos anteriores?

Sid Blues: Muita gente elogiou essa fusão entre minhas influências e as do Joniel. Somos dois universos constrúidos por influências em comum e por muitas diferentes, o que torna o som único. Recebi feedbacks legais e, às vezes, surpresos com essa roupagem nova.

Guilherme Góes|| Hedflow: Além disso, você ficou feliz com o resultado final de Muhgre? Era realmente o que esperava?
Sid Blues:
Sim, fiquei muito satisfeito. Participei de todo o processo de produção, então saiu além do que imaginava quando tudo se juntou.

Guilherme Góes || Hedflow: Quais são seus planos como músico para o futuro próximo? E a longo prazo?

Sid Blues: Pretendo continuar fazendo shows sempre e gravar mais trabalhos, sejam parcerias ou discos solos. Sinto como dever me reinventar e explorar minha musicalidade para trazer coisas novas e interessantes.



Por Guilherme Góes

Estudou jornalismo na Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Apaixonado por música desde criança e participante do cenário musical independente paulistano desde 2009. Além da Hedflow, também costuma publicar trabalhos no Besouros.net, Sonoridade Underground, Igor Miranda, Heavy Metal Online, Roadie Crew e Metal no Papel.