Poucos subgêneros do rock são tão desafiadores quanto o math rock. Mas o que exatamente o define? De forma resumida, trata-se de uma vertente marcada por composições altamente técnicas, métricas não convencionais, riffs intricados e batidas complexas — estruturas que muitas vezes se assemelham a equações matemáticas, o que explica a origem do nome.

Dada essa exigência técnica, a maioria das bandas de math rock costuma exibir uma proposta apenas instrumental. No entanto, alguns grupos incorporam vocais ao seu som, o que, combinado à estrutura rítmica elaborada, torna a experiência ainda mais intensa e emocional.

É o caso da banda norte-americana Tiny Moving Parts. O trio mistura a precisão do math rock com letras confessionais, influências do real emo e temáticas centradas em relações pessoais, amizade e, principalmente, saúde mental. Após mais de uma década de estrada e álbuns aclamados no currículo, o grupo finalmente desembarcou em São Paulo para apresentar ao público local sua fusão única entre math rock e Midwest emo. A estreia aconteceu no último domingo (13), no clube Rockambole, localizado no bairro de Pinheiros, zona oeste da capital.

A abertura ficou por conta de três bandas do interior paulista, escolhidas com precisão para criar uma atmosfera coerente com a proposta da noite. A primeira delas foi a Zero To Hero, grupo oriundo de Taubaté, que, assim como os anfitriões da noite, aposta em um som técnico e bem trabalhado, com destaque para os riffs complexos de guitarra. O set incluiu faixas de materiais como ‘Lilo’, com letras em inglês.



Em seguida, subiu ao palco a Chão de Taco, banda de Piracicaba já conhecida do público paulistano por ter participado de eventos maiores, como a abertura do show esgotado do Menores Atos no Hangar 110 em comemoração aos 10 anos do disco ‘Animalia. Com uma sonoridade que mistura emo, indie rock e pop punk, o grupo não mostrou o virtuosismo técnico das outras atrações, mas compensou com letras emotivas e refrões cativantes. Canções como ‘Pode Dar Certo’, ‘Não Vai Embora’ e ‘A Gente Nunca Mais Se Vê’ conquistaram a pista, contando com as primeiras reações eufóricas da noite.



Fechando o bloco de atrações nacionais, a também piracicabana glover. mostrou-se uma das possíveis revelações do emo nacional. Com forte influência da banda francesa Sport e uma pegada mais voltada ao pop punk, o grupo incendiou o público com uma energia surreal. Músicas do EP ‘Dessa Vez é de Verdade’, como ‘Jazz Clube’, ‘Webamigos para Sempre’ e ‘Tranquilin’, além de faixas de outros lançamentos, embalaram moshpits, stage dives e coros empolgados. Foi uma performance que por pouco não roubou a noite — uma prova clara do potencial da banda para crescer ainda mais dentro da cena alternativa.


Com a casa já cheia e a plateia em total euforia, Dylan Mattheisen (vocal e guitarra), William ‘Bill’ Chevalier (bateria) e Matthew Chevalier (baixo) subiram ao palco e incendiaram ainda mais o ambiente com ‘The Midwest Sky’, que fez o público cantar em uníssono e se jogar nos primeiros stage dives da noite. Na sequência, ‘Always Focused’ manteve o ritmo frenético, com uma base matadora de guitarra em tapping que beirava o virtuosismo. ‘Applause’ elevou ainda mais a energia, desencadeando um moshpit gigantesco. Faixas como ‘North Shore’ e ‘Before I Go’ mantiveram o público em estado de êxtase, e nem mesmo a intensa ‘For the Sake of Brevity’ — canção do álbum ‘Moving to Antarctica’, que trata da dolorosa despedida de uma mãe de sua família — conseguiu abrandar o fervor coletivo.


Com técnica apurada, presença de palco carismática e visivelmente emocionados por estarem tocando no Brasil pela primeira vez, os integrantes seguiram revisitando diferentes momentos da carreira. O setlist incluiu faixas como ‘Common Cold’, ‘Day Drunk’, ‘Feel Alive’ e ‘Sundress’, transbordando uma sonoridade que flutua com naturalidade entre o math rock, o emo raiz e até elementos de pop punk, lembrando nomes como Blink-182 e Neck Deep. O público respondeu à altura, acompanhando cada música com entusiasmo e sem demonstrar cansaço.

No bis, durante a execução de ‘Medicine’, até o vocalista Dylan se rendeu ao clima de celebração e se jogou no stage dive, encerrando a noite de forma catártica.

Embora shows de math rock geralmente sejam marcados pela precisão técnica e menor interação com o público, o Tiny Moving Parts quebrou esse padrão. Uniram virtuosismo com entrega emocional, mantendo uma conexão constante com a plateia. Do outro lado, os fãs também deram um show à parte, respondendo com energia do início ao fim. O grupo mostrou que é possível romper barreiras dentro do próprio gênero.

Fotos: Raíssa Corrêa (Credenciada pelo site Raro Zine)



Setlist

The Midwest Sky

Always Focused

Applause

North Shore

Before I Go

For the Sake of Brevity

Common Cold

Deep in the Blue

Bloody Nose

Tangled Up

Day Drunk

Vertebrae

Feel Alive

Dakota

Sundress

Caution

Birdhouse

Medicine

Texto: Guilherme Góes
Agradecimento especial: Maria Correia (Heavy Metal Online / Metal No Papel)

Por Guilherme Góes

Estudou jornalismo na Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Apaixonado por música desde criança e participante do cenário musical independente paulistano desde 2009. Além da Hedflow, também costuma publicar trabalhos no Besouros.net, Sonoridade Underground, Igor Miranda, Heavy Metal Online, Roadie Crew e Metal no Papel.