A Balaclava Records tem um papel essencial e incontestável no fortalecimento da música alternativa brasileira ao longo das décadas de 2010 e 2020. O selo se destacou por dar visibilidade a artistas independentes que, em muitos casos, passariam despercebidos por grandes gravadoras.
Fundada em 2012 como um projeto paralelo dos músicos Fernando Dotta e Rafael Farah, da banda Single Parents, a gravadora começou de forma modesta, mas rapidamente consolidou seu espaço no cenário nacional. Em pouco mais de uma década, lançou mais de 50 artistas e criou o Balaclava Fest, que se firmou como um dos principais festivais de música independente do país. Além disso, nomes como a banda paulistana Terno Rei - que se tornou um verdadeiro fenômeno cultural após o lançamento do álbum “Violeta” (2019) - passaram a integrar grandes eventos como Lollapalooza e Rock in Rio, além de esgotar ingressos em casas renomadas como o Tokio Marine Hall, Audio e Ópera de Arame.
Hoje, com o selo já consolidado, duas novas apostas vêm se destacando na cena: a banda catarinense Adorável Clichê, de Blumenau, que mistura dream pop e shoegaze e ganhou grande repercussão com o álbum ‘Sonhos Que Nunca Morrem’ (2024), ultrapassando os 27 mil ouvintes mensais no Spotify; e a banda paulistana Pluma, que vem conquistando o público com sua sonoridade pop refinada, com toques de jazz e R&B. Na última sexta-feira (12), ambas se apresentaram na Casa Natura Musical, mostrando que a Balaclava segue em plena renovação - e com ótimo fôlego criativo.
Com a casa lotada, Gabrielle Philippi (voz), Marlon Lopes da Silva (guitarra e voz), Gabriel Geisler (baixo) e Felipe Protski (teclado) subiram ao palco para abrir a noite com o frescor e a intensidade da nova geração do indie rock brasileiro. Um belíssimo e bem executado jogo de luzes - com tons predominantes de roxo e dourado - criou uma atmosfera marcante que, em certos momentos, remetia ao clima intimista do lendário MTV Unplugged in New York, álbum ao vivo do Nirvana lançado em 1994.

Apesar da recente ascensão, o grupo apresentou uma performance poderosa, revelando uma maturidade surpreendente. A vocalista Gabrielle Philippi demonstrou domínio absoluto do palco e do público, alternando momentos de entrega vocal intensa com interações emocionadas com os fãs - que dividiam o microfone com ela em passagens estratégicas. Os demais músicos também evidenciaram grande talento, executando cada nota com precisão e sensibilidade.
O setlist incluiu faixas do disco ‘O Que Existe Dentro de Mim’ e outros singles da banda, mas o verdadeiro êxtase do público veio com as músicas do álbum ‘Sonhos Que Nunca Morrem’. Canções como ‘Devagar’, ‘Medo’, ‘Aonde Mais’ e ‘Distantes’ foram entoadas a plenos pulmões, com devoção quase litúrgica, como se fossem clássicos já consagrados. A plateia participou intensamente, batendo palmas, puxando coros e gritando o nome da banda entre as faixas, criando uma atmosfera de comunhão rara.
De fato, os jovens músicos entregaram uma experiência catártica - o tipo de noite que justifica todo o entusiasmo em torno do grupo e revela, com clareza, seu potencial para se tornarem um dos grandes nomes do rock alternativo nacional.
Após a apresentação intensa e emocional do Adorável Clichê, foi a vez da Pluma encerrar a noite com leveza e energia. Diego Vargas (teclado e synth), Guilherme Cunha (baixo), Lucas Teixeira (bateria) e Mariana Reis (vocal) assumiram o palco com vibração contagiante, transformando o ambiente em uma verdadeira pista dançante, embalada por uma fusão elegante de jazz, pop e elementos eletrônicos.
Com foco no álbum ‘Não Me Leve a Mal’ (2024) e alguns de seus singles mais conhecidos, a banda entregou uma performance tecnicamente impecável. O baixo marcante e a bateria bem estruturada criaram uma base rítmica envolvente, enquanto os sintetizadores e os vocais suaves de Mariana preenchiam o espaço com charme e precisão.

Ao final, ficou clara a diversidade estética entre as atrações da noite: enquanto o Adorável Clichê apostou em uma sonoridade introspectiva e melancólica, a Pluma ofereceu um clima mais festivo e ensolarado. Ainda assim, o público se manteve engajado e entusiasmado em ambas as apresentações, celebrando as diferentes atmosferas propostas com igual entrega.
O saldo do evento não deixa dúvidas: a nova fase da Balaclava Records é promissora, plural e potente. O selo prova que, mais do que manter uma trajetória de sucesso, está disposto a se reinventar, apostar em novos talentos e seguir influenciando - com coragem e originalidade - os rumos da música alternativa brasileira.
Texto: Guilherme Góes
