Nos últimos anos, o rock perdeu espaço na grande mídia brasileira. A ausência da MTV Brasil na TV aberta, o fim de revistas especializadas e a escassez de emissoras que apoiem o gênero deixaram o estilo à margem do mainstream. Ainda assim, algumas bandas seguem firmes, conquistando novos fãs e lotando casas de show por onde passam. Entre esses resistentes está o Maglore — grupo baiano que se firmou como um dos principais nomes do rock alternativo nacional na última década.

Formada em Salvador, em 2009, a banda nunca interrompeu sua produção criativa. Sua sonoridade transita com naturalidade entre o rock alternativo, a MPB, a psicodelia e influências da Jovem Guarda. Ao longo de quase duas décadas, o grupo acumula reconhecimento de crítica e público, com passagens por festivais como Lollapalooza e Lobotomia, além de uma base fiel de fãs espalhados por todo o Brasil.

Após uma apresentação de destaque no Cine Joia, em abril deste ano, o quarteto retornou à capital paulista para mais um show, desta vez no City Lights, em Pinheiros. A noite marcou a celebração dos 15 anos de estrada da banda, já que o grupo vem celebrando a data em nova turnê.

Mesmo com a concorrência direta na região — como o show das promissoras Adorável Clichê e Pluma, artistas da Balaclava Records, selo conhecido nacionalmente por abrigar nomes como Terno Rei — o Maglore conseguiu lotar completamente o pequeno clube City Lights. O espaço ficou tão cheio que, em certos momentos, circular pelo local tornou-se difícil. Logo no início da noite, um detalhe chamou a atenção: a diversidade do público. Embora o Maglore transite por uma vertente mais leve e melódica do rock alternativo, era possível avistar fãs vestindo camisetas de bandas de reggae, rap, hardcore e até heavy metal. Essa variedade demonstra a amplitude da conexão da banda com diferentes cenas e culturas musicais.

Antes da banda principal subir ao palco, quem abriu a noite foi Helena Papini, artista conhecida por sua trajetória na banda Francisco, el Hombre. Agora em carreira solo, ela lançou recentemente seu primeiro álbum autoral e aproveitou o momento para mostrar boa parte das novas composições, sem deixar de fora faixas da fase anterior. Sua sonoridade combina elementos de eletrônico, rock e música experimental, em um set que equilibrou potência e sensibilidade. Ao longo da performance, manteve diálogos calorosos com o público, demonstrando carisma, presença e intimidade com quem acompanha sua trajetória.



Após o intervalo, Teago Oliveira (voz e guitarra), Lelo Brandão (guitarra e sintetizador), Felipe Dieder (bateria) e Lucas Gonçalves (baixo) subiram ao palco e abriram com ‘A Vida É Uma Aventura’, que incendiou o público logo de início. Em seguida vieram faixas como ‘Me Deixa Legal’, ‘Clonazepam 2mg’, ‘Jogue Tudo Fora’ e o hit ‘Às Vezes um Clichê’, todas entoadas em coro pelos fãs. A sonoridade da banda alternava entre o indie rock, a MPB e elementos rítmicos próximos ao samba, formando uma combinação rica e dinâmica. O público, completamente envolvido, cantava alto e participava ativamente do show — em muitos momentos, no mesmo nível de protagonismo dos músicos. A estrutura intimista da casa, com palco baixo e proximidade física, reforçava a sensação de que não havia barreiras entre banda e plateia.

O repertório seguiu como uma sequência empolgante de sucessos: ‘Se Você Fosse Minha’, ‘Amor de Verão’, ‘Transicional’, ‘Café com Pão’ e várias outras. Entre os momentos mais marcantes da apresentação, destacaram-se as releituras de ‘Não Existe Saudade no Cosmos’ — composição do próprio Maglore que foi regravada por Erasmo Carlos — e ‘Eu Vim Passear’, da banda Dingo Bells. Ao todo, o grupo apresentou mais de 20 músicas em um show que durou cerca de duas horas — um verdadeiro rito de devoção, com os fãs entoando cada música como hinos pessoais.



Embora o setlist não tenha trazido grandes surpresas em relação aos últimos shows, a performance no City Lights teve um sabor especial. Ver o Maglore se apresentando praticamente “cara a cara” com o público, em um espaço que remete aos primeiros passos da banda, transformou a noite em uma experiência única — tanto nostálgica quanto celebratória.

Fotos – Vanessa Souza




Texto: Guilherme Góes

Por Guilherme Góes

Estudou jornalismo na Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Apaixonado por música desde criança e participante do cenário musical independente paulistano desde 2009. Além da Hedflow, também costuma publicar trabalhos no Besouros.net, Sonoridade Underground, Igor Miranda, Heavy Metal Online, Roadie Crew e Metal no Papel.