Em entrevista, a Seaport mergulha na origem do projeto, suas influências que vão do punk ao rock experimental, e a relação com Santos — cidade que inspira tanto o nome da banda quanto suas letras críticas. O grupo discute as contradições do litoral urbano, a cena musical independente da Baixada Santista e como o EP ‘Mind Tricks’ sintetiza sua mistura de agressividade e psicodelia. Entre referências históricas e cutucadas no capitalismo, a conversa ainda reserva espaço para listas de bandas locais e um recado final: ‘Façam terapia e ouçam mais bandas underground’.

Guilherme || Hedflow: Olá, pessoal da Seaport! Obrigado por toparem essa conversa. Para começar, contem um pouco sobre a trajetória da banda: como e quando surgiu o projeto?

Seaport: A ideia da banda surgiu com o Fernando Bertuola, que começou a rascunhar as primeiras letras durante a pandemia. No entanto, a banda só foi montada em 2022. Bertuola, que sempre foi baixista, queria experimentar coisas novas na música e decidiu começar a cantar. Ele chamou alguns amigos, como o João e o Johnny (atuais baterista e guitarrista da Capote), o Matheus, que tocou conosco até 2024, e o Cassiano.

Guilherme || Hedflow: O som de vocês possui várias influências — do hardcore ao emo, passando também pelo punk. Com tantas camadas, como vocês definem de fato a sonoridade da banda?

Seaport: A banda é formada por músicos de diferentes vertentes dentro do rock. Isso faz com que tenhamos diferentes interpretações sobre os temas e harmonias, então é natural que o som reflita essa diversidade. Por isso, gostamos de chamar o nosso som de Weird Rock, ou “Rock Estranho”.

Guilherme || Hedflow: Além disso, quais artistas ou bandas vocês consideram referência direta na construção da identidade musical da Seaport?

Seaport: Passamos por bandas como Idles, Fugazi, At the Drive-In, Refused, PJ Harvey, Living Colour, Gang of Four… São muitas influências e artistas dos quais buscamos tirar algo.



Guilherme || Hedflow: Sabemos que alguns de vocês tocaram em grupos como Blackjaw e Old Rust. Como foi o processo de transição desses projetos anteriores — mais ligados ao hardcore melódico — para algo novo como a Seaport? Rolou uma reinvenção ou foi algo natural?

Seaport: Todos nós viemos de bandas diferentes da cena do rock independente caiçara, então foi um processo de encontrar um ponto em comum. Por já termos alguns anos de bagagem, foi tranquilo encontrar um local onde as diferentes características sonoras se somaram.

Guilherme || Hedflow: O nome “Seaport” faz referência direta a Santos, que abriga o maior porto do Brasil. Como vocês enxergam a vida na cidade? O que Santos tem de único em comparação com outras cidades do litoral ou mesmo da capital?

Seaport: Santos tem uma grande importância histórica no Brasil, sendo a terra de José Bonifácio e dos Andradas, que foram importantes no processo de independência. Santos também já foi uma cidade bem progressista, com um grande movimento operário ligado ao porto e um forte movimento estudantil.

No entanto, é uma cidade com contradições: existe uma elite política provinciana, enormes favelas de palafitas e muitas pessoas em situação de rua. Tem uma das orlas mais bonitas do mundo, mas ao mesmo tempo é cheia de ratos. Santos é muito sobre essas contradições e sobre como maquiá-las bem. O nome Seaport veio como uma homenagem à luta de toda a classe trabalhadora portuária, que batalhou muito para que não só Santos, mas toda a Baixada Santista, se desenvolvesse.

Guilherme || Hedflow: E falando em Santos, como vocês avaliam a cena musical atual por aí? A cidade sempre revelou nomes importantes para o rock independente e até mesmo para o mainstream — como é o caso do Charlie Brown Jr. Vocês acham que ainda existe esse potencial?

Seaport: Santos e toda a Baixada têm ótimas bandas na cena e excelentes músicos. O que falta são espaços e casas com estrutura que abram espaço para essas bandas. Em termos de bandas, há inúmeras: Glote, Aclive, Depois da Tempestade, The Scuba Divers, Get Some Sleep, Asco, Feel Better, Fio Desencapado, Old Rust, Blackjaw, Vidaincerta… E há bandas que ainda nem lançaram material, mas que já acompanhamos.



Guilherme || Hedflow: Muita gente associa o litoral a uma vida mais tranquila, mas as letras da Seaport falam muito sobre competição, rotina exaustiva, pressão por produtividade — temas muito ligados à vida moderna e ao capitalismo. Vocês acham que essa correria já é uma realidade em qualquer lugar, que vai além das grandes metrópoles? Existe ainda alguma fuga possível dessa lógica?

Seaport: Apesar de o litoral de São Paulo abrigar apenas 4% da população do estado, Santos e a Baixada Santista são uma região bem urbana. Existe um polo industrial em Cubatão, e metade do porto de Santos fica na margem do Guarujá, no canal do estuário. São Vicente e Praia Grande são cidades muito integradas a Santos, com um comércio forte.

Por isso, a vida na Baixada não é como a do litoral norte. Temos um porto enorme, grande circulação de caminhões, pessoas, cargas, cruzeiros e turismo. Todos esses são grandes mercados, com grandes empresas que pertencem a grandes capitalistas, o que faz com que a vida do trabalhador da região seja igualmente pesada.

Mesmo em regiões mais afastadas do litoral paulista, como o litoral norte, essas cidades ainda fazem parte de uma sociedade em que o modo de produção é baseado na busca por acumulação de riqueza. O capitalismo é um modelo de produção que acontece em um tempo histórico específico, e é impossível que qualquer um de nós não tenha que lidar com suas mazelas.

Guilherme || Hedflow: Ainda sobre esse ponto, vocês acreditam que participar de cenas independentes como o punk ou o hardcore pode ser uma forma de resistir a esse ritmo acelerado e reconectar com outras formas de vida?

Seaport: Punk e hardcore vão além de uma sonoridade; são sobre uma visão de vida, sobre como observamos, absorvemos e expressamos o ambiente em que vivemos. Participar de uma cena musical que está para além da música — em que a atitude, a posição e o enfrentamento são tão importantes quanto a arte em si — faz com que um senso de união, respeito e camaradagem nasça naturalmente. É evidente que nem todos dentro da cena são gente boa, mas esses são sempre a exceção.

Guilherme || Hedflow: Vocês lançaram recentemente o EP Mind Tricks. Como foi o processo de composição e gravação desse trabalho?

Seaport: O processo de composição de Mind Tricks foi bem orgânico. Os instrumentais nasceram de sessões de jam no ensaio; às vezes, vinha alguma base, um riff ou uma levada, e a partir disso fomos construindo as músicas. Paralelamente, o Fernando foi escrevendo e desenvolvendo o conceito das letras junto com a banda. Mas muita coisa só aconteceu dentro do estúdio de gravação mesmo, principalmente as partes mais experimentais.

Guilherme || Hedflow: O EP foi gravado no Estúdio Warzone, em Santos, e contou com a produção, mixagem e masterização do Willians “Jurema” Cruz, um nome conhecido na cena local. O que motivou a escolha do estúdio e como foi trabalhar com o Willians? Vocês acham que a mão dele influenciou no resultado final?

Seaport: Nós já ensaiamos semanalmente no Warzone, e o Jurema é nosso amigo há muitos anos. A mão dele foi muito importante no nosso processo, tanto para sugerir algumas coisas quanto para nos frear quando estávamos exagerando. Sem dúvida, o EP não seria o que é sem o Willians.



Guilherme || Hedflow: Sobre o conteúdo do EP: qual faixa representa com maior intensidade o objetivo principal da banda?

Seaport: É difícil dar essa resposta, mas talvez seja “Questions”, por ser uma música que é forte, mas tem uma parte mais psicodélica, e a letra já segue a temática do EP.

Guilherme || Hedflow: Para fechar, indiquem algumas bandas ou artistas que vocês acham que o público precisa conhecer, com destaque para a cena local!

Seaport: Get Some Sleep, Aclive, Feel Better, Glote, O Último Banco do Bar, Depois da Tempestade, Karma 13, Vidaincerta, Maré Vermelha, Asco, Fio Desencapado.

Guilherme || Hedflow: Valeu demais pela conversa, pessoal! Agora o espaço é de vocês: deixem um recado final para os leitores.

Seaport: Façam terapia, ouçam bandas independentes, apareçam nos shows underground e nos acompanhem. Em breve, faremos uma miniturnê pelo estado de São Paulo com nossos amigos do CHCL e do Módulo Lunar, e já estamos trabalhando em novos lançamentos, então fiquem espertos!

Por Guilherme Góes

Estudou jornalismo na Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Apaixonado por música desde criança e participante do cenário musical independente paulistano desde 2009. Além da Hedflow, também costuma publicar trabalhos no Besouros.net, Sonoridade Underground, Igor Miranda, Heavy Metal Online, Roadie Crew e Metal no Papel.