Entre guitarras densas, ética DIY e uma lírica que transita entre o íntimo e o visceral, a banda paulistana Homeninvisivel vive um novo capítulo. Prestes a lançar um EP inédito e embalados pelo single “Navalhas”, eles conversaram com a Hedflow sobre o amadurecimento sonoro, a força da cena independente, o impacto do shoegaze e do post-hardcore em sua identidade e a urgência de ocupar espaços com autenticidade e barulho.
Guilherme || Hedflow: Olá, pessoal do Homeninvisivel! Obrigado por toparem bater esse papo com a gente aqui na Hedflow. Pra começar, queria que vocês se apresentassem e contassem um pouco sobre a trajetória da banda até aqui. Quais são as principais influências musicais que moldam o som de vocês?
Darkk: A gente que agradece pela oportunidade e pelo espaço! A banda começou a se formar em meados de 2017. Me mudei de Porto Alegre para São Paulo em 2015 e fiquei um pouco afastado da música por alguns anos, até decidir encarar um novo projeto em uma nova cidade. É difícil mudar e chegar em uma cidade sem conhecer ninguém, mas, aos poucos, as coisas foram acontecendo. Muito da decisão de montar uma nova banda veio por ver a cena indie alternativa independente que estava crescendo em São Paulo, na época em que a Balaclava estava começando a fazer bastante barulho e vários eventos com novas bandas pela cidade. Era uma cena que estava se formando, e eu queria fazer parte disso. Cheguei num momento muito propício em São Paulo, e a banda foi se construindo a partir daí.
Lançamos um material gravado ao vivo na garagem de uma casa, super lo-fi, em 2018. Gerou certo buzz na época, pois veio junto com esse “boom” alternativo bem nichado que é o shoegaze. Lançamos esse material e entramos num cenário com bandas como Eliminadorzinho, El Toro Fuerte e, naquele momento estreante também, Terraplana, que estavam fazendo parte desse movimento que eu costumo chamar de “rock triste”. Desde esse primeiro período, a banda passou por diversas formações, o que, por consequência, foi alterando a musicalidade. Partimos de um início muito focado em fazer um indie lo-fi shoegaze para trazer mais aspectos do hardcore e do post-hardcore, por meio de um fluxo natural. Acredito que, até hoje, não perdemos a nossa conexão com o shoegaze, mas estamos soando mais diretos e mais “pra frente”, com músicas mais rápidas e, de certa maneira, até mais pop também, na minha visão. Como eu comentei, tudo de maneira natural.
Hari: Muito obrigado, galera! Esses espaços de comunicação são muito importantes pra gente!
As principais influências, atualmente, transitam muito em bandas que fizeram um revival do emo, post-hardcore — Title Fight, Basement, Citizen, Narrow Head etc. Mas, ainda assim, cada um da formação traz suas bagagens musicais para construir essa receita sonora.
Guilherme || Hedflow: O nome Homeninvisivel chama bastante atenção. Ele faz referência a algum personagem específico, talvez de uma série ou livro? Ou tem um significado mais filosófico por trás
Darkk: Na verdade, a criação do nome não tem uma história tão interessante assim. Já estávamos tocando há algum tempo e ainda não tínhamos um nome. Quanto mais nos aproximávamos de ter uma sonoridade já formada e músicas autorais, mais sentíamos que precisávamos de um nome impactante. A escolha veio de uma conversa totalmente despretensiosa, logo após um ensaio. O caminho de saída foi perceber que éramos quatro homens tocando, e aí a linha de pensamento foi seguindo de maneira aleatória. Além disso, a brincadeira com a letra “N”, em vez de “M” em “homen”, também apareceu nesse mesmo momento — uma brincadeira para soar estranho e mais interessante. O nome era para ser excêntrico mesmo e fazer as pessoas se perguntarem: “Por que o nome é assim? Será que está errado?”. Alguns anos depois, foi lançado um filme sobre o Homem Invisível, e isso acabou atrapalhando as nossas redes sociais, mas tudo certo. É do jogo (risos).
Guilherme || Hedflow: Pesquisando mais sobre o som de vocês, percebi uma forte estética shoegaze nas composições. No entanto, vocês costumam dividir o palco com bandas de hardcore melódico e pop punk. Como o público dessas cenas costuma reagir ao som mais introspectivo de vocês?
Hari: Acredito que ninguém reagiu mal até agora (risos). Até pelo motivo de que muitas dessas bandas estão no mesmo corre e, ainda assim, a linha tênue dos estilos musicais é bem fina. Eu, particularmente, acho uma bobagem essa coisa de sectarismo por gêneros musicais. Diversos festivais de música bem famosos estão aí pra provar isso — têm muitos festivais incríveis com diversas bandas de diferentes estilos, e é uma grande oportunidade para as pessoas conhecerem grupos que nem imaginariam conhecer.
Um outro ponto sobre isso: por estarmos transitando basicamente pelo post-hardcore, shoegaze e o emo, isso aproxima uma gama diferenciada de pessoas — e eu acho isso ótimo. Assim, conseguimos conversar com diversas linhas de possibilidades.
Guilherme || Hedflow: No início do ano, vocês tocaram com o Glitterer, projeto do Ned Russin, do Title Fight — uma banda que, claramente, teve impacto no som de vocês. Como foi essa experiência de abrir o show pra eles? Teve algum momento marcante?
Darkk: Pode soar meio bobo, mas até hoje eu ainda não acredito que isso de fato aconteceu. O Title Fight é uma banda que eu costumo dizer que escreveu a trilha sonora da minha vida. As suas músicas me acompanham faz muito tempo, e eu me inspiro muito na banda. Quando recebemos o convite, demorou até cair a ficha (até hoje acho que não caiu). Fomos uma das bandas de abertura, junto com os amigos do Metade de Mim (ótima banda, fica a dica pra quem não conhece). Foi uma grata surpresa o convite da produtora NDP para tocar nesse evento, mas também foi um grande desafio que a gente teve que enfrentar, pois tivemos pouco tempo para ensaiar com a nova formação, que recém havia se formado após a troca de integrantes.
Hari: Um momento bem marcante pra mim foi ver que o Ned estava assistindo ao nosso show. Pensei que ele fosse assistir a uma música ou outra, mas ele ficou o SET INTEIRO. Espero que ele tenha gostado (risos).
Guilherme || Hedflow: Lá em 2018, vocês lançaram o EP Formas Negativas, e depois veio um intervalo considerável até o single “Dissolver”, que saiu só em 2021. O que levou a essa pausa nas gravações e lançamentos?
Darkk: Ainda em 2018, alguns meses após o lançamento, a banda acabou passando por algumas alterações na sua formação. Alguns integrantes temporários passaram e ficaram pouco tempo durante o ano de 2019 e, logo após esse período de instabilidade na formação, veio a pandemia, no início de 2020, e bagunçou tudo — o que acabou levando a banda a entrar em hiato por algum tempo. Voltamos a tocar já com uma nova formação em 2021, após a primeira campanha de vacinação, quando já nos sentíamos mais seguros para ir ao estúdio juntos. Hoje, sou o único integrante que restou da formação original da banda — e fundador, inclusive. Uma banda nova, armada do zero e sem integrantes conhecidos, leva algum tempo para conseguir se estabilizar na cena. O que estamos tentando fazer hoje é recuperar um pouco desse tempo perdido entre trocas de integrantes e pandemia. Acredito que estamos em um bom caminho para isso com esses novos lançamentos. Não quero uma banda que fique dentro do quarto. Minha principal intenção com a banda é poder tocar, tocar e tocar.
Guilherme || Hedflow: Agora, em 2025, vocês voltam com força com o single “Navalhas”. Contem um pouco sobre essa música — tanto em termos sonoros quanto líricos. O que ela representa?
Darkk: “Navalhas” representa o início de uma nova fase pra gente. É uma música que fala sobre o peso das palavras e o afastamento necessário pra se curar. A letra nasce de um lugar muito íntimo, quase como uma cicatriz sendo exposta.
Sonoramente, ela mistura tudo o que a gente vem construindo: guitarras densas, vocais intensos e aquela tensão entre silêncio e explosão. É uma faixa feita pra rasgar ao vivo. Ela marca esse momento em que a banda se tornou mais direta, mais visceral — mas sem perder a sensibilidade que sempre fez parte do nosso som.
Guilherme || Hedflow: A arte de capa de “Navalhas” também chama atenção pela estética forte e bem resolvida. Quem foi o responsável por esse trabalho visual? Qual foi a ideia por trás da imagem?
Tucca: Eu fiz essa capa tentando expressar um pouco do que eu sinto escutando o som. Sempre tento visualizar imagens e cores em músicas, e em “Navalhas” eu tentei trazer um pouco do agito e da calmaria que transitam durante a música. Foram várias versões até chegar nessa escolhida, mas acredito que essa capa conversa muito bem com o momento em que a banda está: em uma nova fase e se reinventando musicalmente.
Guilherme || Hedflow: O single antecipa um novo trabalho que será lançado em agosto. O que vocês podem adiantar sobre esse lançamento? A galera pode esperar uma continuidade do que vocês já vinham fazendo ou vêm aí novas influências e experimentações?
Hari: Definitivamente, podem esperar algo diferente do que havíamos lançado anteriormente. No decorrer dos anos, a banda já vinha se encaminhando para uma mudança sonora e, acredito que, com esse EP, materializa isso de forma mais concreta.
As composições estão com mais peso, ataque, direto ao ponto, mas, ainda assim, mantendo um pouco daquela coisa etérea e densa que a banda tinha como proposta nos anos iniciais.
As letras também refletem bastante sobre o que estamos vivendo agora, como pessoas que estão na casa dos 30, abordando temas com os quais uma pessoa comum pode se identificar.

Guilherme || Hedflow: Outro ponto legal: o novo material foi gravado no Toth, em São Paulo, com produção do Dan e da Fe Uehara, ambos do Bullet Bane. Como foi trabalhar com eles? Acham que a participação deles trouxe algo único que só poderia ter sido alcançado com esse estúdio?
Darkk: Gravar no Toth com o Dan e o Fe Uehara foi um divisor de águas pra gente. Até esse momento, a Homeninvisivel era uma banda que fazia tudo dentro do próprio quarto. Produção, gravação, artes — tudo nasceu do nosso corre, com base na ética DIY que sempre guiou a banda. Então esse passo de entrar num estúdio renomado como o Toth não foi só técnico, foi simbólico pra gente também.
A gente escolheu trabalhar com o Dan e o Fe porque já admirava o que eles faziam no Bullet Bane e sabíamos que havia um ponto de conexão ali. Eles entendem de perto o que é fazer música na cena alternativa, de forma honesta, com intensidade e propósito. E foi uma experiência muito boa. A gente entrou lá com uma ideia e saiu com algo até maior do que eu imaginava. A estrutura, os equipamentos — claro, fazem diferença — mas o que realmente marcou foi o ambiente leve, mas muito focado, que a gente encontrou. Pra mim, é o trabalho mais sólido da banda até hoje. Foi nesse processo que “Navalhas” tomou forma, e, com ela, essa nova fase da banda: uma fase mais madura, mais crua e mais consciente do que a gente quer dizer e como quer dizer. Acho que esse resultado, essa intensidade que conseguimos capturar, só teria acontecido com eles e dentro daquele estúdio. Foi o lugar certo, com as pessoas certas, na hora exata.
Guilherme || Hedflow: Depois do lançamento desse novo EP, quais são os planos da banda? Shows, turnê, clipes, mais lançamentos?
Darkk: Nosso plano com esse novo EP é simples e direto: cair na estrada e tocar em todo lugar possível! A gente ama tocar em São Paulo, claro, é nossa base — mas não queremos ficar presos aqui. Nosso objetivo é levar esse som pra outras cidades, outros estados e alcançar públicos que muitas bandas da cena paulistana acabam ignorando. Queremos tocar onde nem sempre tem show, onde as pessoas estão com sede de ouvir algo novo.
A gente quer estar na estrada, conhecer gente, fazer amizades, passar perrengue e viver tudo que faz parte da experiência de ser uma banda independente no Brasil. Esse contato direto é o que mais alimenta a gente. Os palcos são onde tudo se transforma em real — e não apenas virtual — e a gente quer levar isso o mais longe possível.
Já temos datas para os próximos meses. Também temos clipes a caminho, e o lançamento completo do EP está previsto pra meados de agosto. Tá tudo acontecendo ao mesmo tempo e, como banda independente, sem muita grana, a gente precisa equilibrar tudo com cuidado pra controlar a ansiedade: arte, logística, tempo, saúde mental. Mas seguimos firmes, porque acreditamos no que estamos construindo. Mais do que aparecer, a gente quer se conectar. E não tem nada melhor do que fazer isso na base da estrada, do olho no olho, do barulho compartilhado com as pessoas que estão vibrando nessa mesma onda também.
Guilherme || Hedflow: Pra fechar: o espaço agora é de vocês. Mandem um recado pra quem acompanha o trabalho do Homeninvisivel — ou tá conhecendo agora.
Darkk: A gente tá levantando a bandeira do DIY com força. De não esperar que as coisas cheguem até você, mas sim de ir atrás, de ocupar espaço. De sair de casa, tocar, errar, acertar, mas se mover. A Homeninvisivel existe porque a gente acreditou que dava pra fazer do nosso jeito — e seguimos assim, organizando nossos próprios eventos, puxando trampo na unha, tentando fazer a cena independente de São Paulo se fortalecer.
Mas ninguém faz nada sozinho. Cena não é uma palavra vazia. Cena é a soma das pessoas que colam, que divulgam, que compartilham, que vão no show da banda amiga, que pagam a entrada mesmo quando o corre tá apertado. Então, o que a gente mais pode dizer é: participem! Saiam de casa. Ouçam a banda dos seus amigos. Sejam parte do movimento. Ajudem a construir algo que vá além do virtual.
E pra quem tá conhecendo a gente agora: esse é um convite real. Nosso som não é feito pra agradar, mas sim pra se conectar. Se você se sente deslocado, fora do centro, se carrega coisas demais dentro de si, talvez a nossa música fale com você. A gente tá aqui pra trocar, pra construir junto, pra fazer barulho que diga alguma coisa verdadeira. Nos vemos nos próximos rolês!
