Nem o frio intenso, nem a data comemorativa do Dia dos Pais desanimaram o público que aguardava ansiosamente para ver ao vivo uma das maiores lendas do hardcore. Após passar pelo Chile e pela Argentina, no último domingo (10) as produtoras NDP e Powerline trouxeram a São Paulo a banda norte-americana 7 Seconds, marcando o primeiro show do grupo no Brasil em 10 anos. O evento aconteceu no Fabrique Club, na Barra Funda. Curiosamente, a última apresentação deles na cidade foi na antiga Clash Club — também localizada na mesma rua, a poucos metros dali, hoje rebatizada como Espaço Usine. Para completar o line-up da noite, subiram ao palco as bandas O Inimigo e Freak Fur.

Formada em 1980, em Reno (Nevada), pelos irmãos Kevin Seconds e Steve Youth, o 7 Seconds é um ícone da primeira geração do hardcore. O grupo se destacou por unir velocidade e agressividade a letras positivas, defendendo valores como amizade, igualdade e combate ao preconceito. Pioneiros do chamado positive hardcore, influenciaram gerações de bandas punk e hardcore ao redor do mundo, sempre mantendo uma postura ética e engajada ao longo de mais de quatro décadas. No final dos anos 1980, se aventuraram por outros estilos com os discos ‘Ourselves’, ‘Soulforce Revolution’ e ‘Out the Shizzy’ — os dois primeiros com sonoridade próxima ao U2, e o último flertando com o grunge. Embora essas experimentações não tenham agradado boa parte dos fãs, no início dos anos 2000 a banda retornou ao hardcore, incorporando influências mais melódicas. Em 2018, anunciaram uma pausa temporária, mas retomaram as atividades em 2021.

A noite começou com o Freak Fur, que apresentou um hardcore com forte influência da cena santista dos anos 1990, remetendo diretamente ao Garage Fuzz. Na sequência, foi a vez de O Inimigo, formado por veteranos da cena hardcore paulistana, como Fernando Sanches (ex-CPM 22) e Juninho (Ratos de Porão). No repertório, clássicos da cena underground local como ‘Tarde Demais’ e outras faixas queridas pelos fãs.



Nos primeiros shows, o público ainda era reduzido, dando a impressão de que o evento teria baixa adesão. Porém, próximo ao horário principal, a casa encheu, revelando que a maioria estava ali para ver os mestres do hardcore. Quando Kevin Seconds (vocal), Bobby Adams (guitarra), Sammy Siegler (Shelter/Project X) na bateria — substituindo o antigo baterista Troy Mowat — e um baixista no lugar de Steve Youth subiram ao palco, o Fabrique explodiu. A banda iniciou uma sequência de clássicos, com destaque para músicas dos álbuns ‘The Crew’ e ‘Walk Together, Rock Together’, verdadeiros pilares do hardcore, como ‘Here’s Your Warning’, ‘Definite Choice’, ‘Regress No Way’ e ‘Not Just Boys Fun’. A plateia agitou o moshpit e cantou em coro, embora tenha havido menos stage dives que em outros shows recentes na cidade, como Gorilla Biscuits e Shelter — possivelmente devido à idade média mais alta do público, com muitos fãs acima dos 40 anos.



O set seguiu revisitando toda a carreira, incluindo faixas como ‘Satyagraha’, ‘Sooner or Later’ e ‘Somebody Help Me Scream’ — algumas mais agressivas e velozes, outras com clima mais suave e até toques de new wave. Houve também espaço para novidades: ‘Change in My Head’, música antiga lançada recentemente nas plataformas, com influências de Suicidal Tendencies, e ‘Leave a Light On’, única representante do último álbum completo da banda, com uma pegada melódica marcante. Mas foram os clássicos ‘Walk Together, Rock Together’, ‘Young ‘Til I Die’ e o cover de ’99 Red Balloons’ (Nena) que provocaram maior comoção, com fãs subindo ao palco para cantar com Kevin.

Quando o público achou que a festa havia acabado, a banda retornou para um bis dedicado ao álbum ‘The Crew’, tocando ‘You Lose’, ‘Trust’ e a faixa-título, encerrando a noite com energia máxima.

Ao longo de todo o set, Kevin se mostrou extremamente em forma e cheio de energia. Aos 64 anos, não errou uma letra, cantou com potência e incentivou a participação do público. Sammy, com seu estilo peculiar e bateria canhota, adicionou velocidade e técnica às músicas, sem deixar nada a dever ao antigo baterista. Sem dúvida, a filosofia de ‘Young ‘Til I Die’ que o grupo sempre cantou continua viva — e funcionando perfeitamente.

Fotos: Raíssa Santos (credenciada pelo site Road To Metal)





Setlist

Here’s Your Warning
Definite Choice
New Wind
Regress No Way
We’re Gonna Fight
Not Just Boys Fun
This Is the Angry
Satyagraha
Tied Up in Rhythm
Sooner Or Later
Remains to Be Seen
Somebody Help Me Scream
Still Believe
Walk Together, Rock Together
Change In My Head
Young ‘Til I Die
In Your Face
Leave a Light On
99 Red Balloons (Nena cover)
You Lose
Trust
The Crew


Texto: Guilherme Góes

Agradecimento especial: Maria Correia (Heavy Metal Online / Metal No Papel)

Por Guilherme Góes

Estudou jornalismo na Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Apaixonado por música desde criança e participante do cenário musical independente paulistano desde 2009. Além da Hedflow, também costuma publicar trabalhos no Besouros.net, Sonoridade Underground, Igor Miranda, Heavy Metal Online, Roadie Crew e Metal no Papel.