Em maio deste ano, durante o show da banda Miss May I, Bruno Genaro — responsável pela NDP Productions — surpreendeu o público ao anunciar que a produtora, conhecida por organizar turnês de hardcore, punk e pop punk, iria apostar em uma gig de black metal. Poucos dias depois, veio a revelação: tratava-se do Cradle of Filth, um dos maiores nomes do gênero. A decisão foi surpreendente, já que a NDP, criada apenas em 2024, ainda é uma marca recente no cenário.
Formado em 1991, na Inglaterra, o Cradle of Filth promoveu uma verdadeira revolução na música extrema. Embora tenha surgido no black metal, expandiu sua sonoridade ao longo dos anos, incorporando elementos do metal gótico, sinfônico e outras vertentes. Suas composições abordam temas sombrios inspirados na literatura gótica, mitologia e horror. Essa abertura estética fez a banda enfrentar resistência dos fãs mais conservadores, que a acusaram de ‘poser’. Ainda assim, construiu uma carreira sólida, conquistou respeito mundial e mantém seguidores fiéis.
No último sábado (23), o grupo realizou sua sexta apresentação em São Paulo, dentro da turnê ‘The Screaming of the Americas’, que divulga o álbum ‘The Screaming of the Valkyries’, 14º trabalho de estúdio da banda. O evento contou ainda com Tellus Terror (RJ) e Uada (EUA), reforçando o peso da noite. Como de costume, a casa escolhida foi o tradicional Carioca Club, palco dos shows do Cradle na capital desde 2010.
Abertura e aquecimento do público
Já antes da abertura da casa, bares da Rua Cardeal Arcoverde estavam tomados por headbangers, alguns vestidos como cosplayers da banda, recriando visuais de clipes clássicos. Ambulantes aproveitaram o clima vendendo camisetas e acessórios, atraindo até os próprios músicos, que foram flagrados comprando produtos.
Com o público ainda se acomodando no espaço, quem abriu a noite foi o Tellus Terror, diretamente de Niterói (RJ). Pouco conhecido de parte dos presentes, o grupo está na ativa desde 2012 e já possui alguns lançamentos disponíveis nas plataformas digitais. No palco, apresentou faixas como ‘Amborella’s Child’, ‘Absolute Zero’ e ‘Sickroom Bed’, demonstrando claras influências da atração principal. A sonoridade mescla peso e brutalidade do death metal com elementos sinfônicos, sustentada por grande cuidado com figurino e presença de palco. Uma abertura certeira para aquecer a plateia.

Na sequência, e já com a casa lotada, foi a vez do Uada, de Portland (EUA), banda já conhecida do público paulistano por suas passagens em 2019 e 2023. Fiel ao seu estilo visual, o grupo se apresentou em silhuetas — desta vez com um pouco mais de iluminação em comparação a shows anteriores, o que facilitou o trabalho dos fotógrafos. O set trouxe um black metal melódico bem lapidado, marcado por batidas ultrarrápidas de bateria, riffs densos e solos mais elaborados do que se costuma ouvir no gênero. Foram apenas cinco músicas, mas o show ultrapassou a marca dos 30 minutos.
O grande destaque foi a performance visceral de Jake Superchi, cujo vocal evocava uivos quase animalescos, e a técnica impressionante do baterista Elijah Losch, aclamado pelo público a cada virada. Apesar de pequenos percalços — como o guitarrista escorregando no palco e falhas no microfone principal (que levantaram dúvidas se não faziam parte da proposta sonora) — a apresentação manteve a atmosfera intensa e hipnótica, consolidando-se como um dos pontos altos da noite.

Cradle of Filth: teatralidade e peso
Com a casa completamente lotada, o Cradle of Filth subiu ao palco às 19h20 — vinte minutos após o horário programado. Diferentemente da atmosfera sombria e minimalista do Uada, Dani Filth e companhia entraram em cena com impacto, apostando em explosões de fumaça e iluminação colorida. A abertura ficou por conta de ‘To Live Deliciously’, faixa do novo álbum, marcada por arpejos elaborados, um solo bem construído e bateria avassaladora — prova de que a banda continua entregando um som brutal e afiado. Logo em seguida, o grupo voltou no tempo para 1992 com ‘The Forest Whispers My Name’, do disco ‘The Principle of Evil Made Flesh’, em uma performance que soou como puro black metal extremo, sustentada por skank beats furiosos, gritos dilacerantes de Dani e viradas complexas de bateria. Nesse momento, os guitarristas também aproveitaram para interagir com a plateia.
Uma das grandes surpresas do repertório foi ‘She Is a Fire’, presente apenas no álbum ao vivo ‘Trouble and Their Double Lives’. De volta ao material recente, ‘Malignant Perfection’ trouxe linhas de teclado dominantes e uma sonoridade quase pop, algo que certamente soou como uma heresia aos ouvidos dos fãs mais puristas do black metal.

Em um rápido diálogo com o público, Dani anunciou que tocaria uma música “do século XVII” — como brincou — dedicada a uma banda brasileira que não era o Sepultura (embora não tenha revelado qual). O anúncio antecedeu ‘The Principle of Evil Made Flesh’, que levou o público a um mergulho no peso do debut, com direito a blast beats devastadores. Na sequência, ‘Heartbreak and Seance’, do álbum ‘Cryptoriana: The Seductiveness of Decay’, incendiou a plateia, que abriu mosh pits e até se arriscou em crowdsurfings — cenas incomuns em shows de black metal. Com o público totalmente entregue, vieram ainda ‘Nymphetamine (Fix)’ (provavelmente o maior hit do estilo, e a música mais conhecida da banda), ‘Born in a Burial Gown’ e ‘White Hellebore’.

Após um breve intervalo, a banda retornou para o bis com ‘Cruelty Brought Thee Orchids’, ‘Death Magick for Adepts’ e, para encerrar, ‘Her Ghost in the Fog’, outro clássico absoluto que transformou o Carioca Club em um grande coro coletivo.
É verdade que, com uma carreira extensa e 14 álbuns de estúdio, muitas músicas ficaram de fora, o que deixou alguns fãs insatisfeitos. Ainda assim, o show reafirmou por que o Cradle of Filth é uma das bandas mais importantes da música extrema: um grupo que ajudou a levar o black metal a outros níveis, tornando-o mais acessível sem perder a essência obscura e teatral que o define.
Fotos: Jaqueline Souza (credenciada pelo site Metal No Papel)






















Texto: Guilherme Góes
Agradecimento especial: Maria Correia (Metal No Papel / Heavy Metal Online)
