Dia 1
Em Agosto, Vila Praia de Âncora recebeu a 13ª edição do Festival Sonicblast, edição esta esgotada e visitada por mais de 16.500 pessoas e com 3 palcos por onde passaram sonoridades diversas, não só os tradicionais stoner, doom ou rock psicodélico, mas também o punk, o post punk e synth pop e EBM.
Do evento em si só impressões positivas, como habitual, localização ótima, mesmo ao lado da praia em Vila Praia de Âncora, organização infalível e competente com horários a serem meticulosamente cumpridos e comida variada e a preços acessíveis, a juntar um ambiente sempre descontraído, um clima ensolarado com algum nevoeiro à mistura e temos o local ideal para uns dias de férias mergulhados em música, praia e gastronomia, razões mais que suficientes para atraírem uma larga fatia de público estrangeiro, dos quatro cantos do mundo. Sonicblast tornou-se o local de peregrinação para um público que quer viver a música em cumplicidade e saborear estes poucos dias de verão em serenidade e comunhão, não esquecendo de prestar homenagem aos Black Sabbath e a Ozzy Osbourne, ícones importantes para todos os que passaram por ali, e presentes no enorme banner da banda na entrada a receber-nos, pano de fundo essencial para memórias fotográficas dos que ali passaram e quiseram registar o momento com os deuses do rock.
Iniciamos a nossa incursão ao Sonic no primeiro dia e com os Hoover III, vindos dos Estados Unidos e abrindo o palco o palco principal com o psicodelismo necessário e competente, passando pelo space, prog e kraut, iniciou-se a viagem espacial no recinto. Seguidos por mais um grupo estadunidense, os Spoon Benders, estes já mais colados a um som garage com punk na alma e irreverência em palco.
Os Slomosa eram muito aguardados e corresponderam com um concerto enérgico e intenso, com muitos fãs à escuta e muitos outros a aderir a este culto. Embora de origem nórdica, foram responsáveis pelo primeiro momento de calor e adrenalina do fest.
O Sonicblast tem revelado querer explorar outras sonoridades e bandas dentro do espectro alternativo, exemplo disso foram os Ditz, já com alguma presença recorrente no nosso país, com passagem pelo Extramuralhas e o Post Punk Strikes Back Again, onde o vocalista sempre se demonstrou intrépido e muito visceral na sua procura de contacto com o público, desta vez não foi diferente, logo à partida Cal Francis agarrou numa garrafa e foi em direção ao público para iniciar a partilha da mesma e de si. Perguntava-me se iria repetir a façanha parecida com a que fez em Leiria, onde trepou a uma árvore e sim, trepou os andaimes e cantou, fazendo deste concerto uma montanha russa constante.
Os veteranos Earthless regressaram e levaram-nos a viajar por sons inebriantes em mais um momento de intensa comunhão entre banda e público, conjunto muito adorado pela malta do Sonicblast, levou todos a uma viagem de êxtase transcendental, conduzida com intensa precisão instrumental.
Em seguida tivemos a estreia de King Woman, concerto para o qual estávamos um pouco expectantes, Kristina Esfandiari foi intensa e emocional na sua atuação, forte mas frágil ao mesmo tempo, procurando de forma intensa o calor do público. Abriu caminho para outro projeto bastante esperado pelo público neste dia e neste Sonicblast, Amenra.
Intenso é o adjetivo que se deve utilizar para definir os concertos da banda Amenra, uma montanha-russa que desliza entre o caos e a serenidade, o preto e o branco, descargas energéticas e momentos de transe. Foi a primeira vez que os vimos em ambiente de festival e não desiludiram, a intensidade cerimonial manteve-se e o público prestou vassalagem e comungou sem reservas e sem medos.
A fechar o palco principal uma das atrações mais esperadas, ausente de solo nacional há 15 anos, Fu Manchu. Os californianos fizeram as delícias do público, com décadas de história, o profissionalismo já é muito e trouxeram o ‘sol californiano’ para quebrar o nevoeiro que nos bafejou durante todo o dia e para subir a energia de quem assistia e cantava em coro, uma performance inesquecível.
Ainda antes de rumar a casa fomos espreitar Máquina, projeto muito benquisto pelos portugueses e não só, daí provavelmente a repetição do ano passado no line up. Abriu-se lugar à dança no esforço de acordar o corpo para as apresentações que ainda faltavam.
Dia 2
O segundo dia continuou imerso em nevoeiro, conferindo uma certa mística ao recinto e contribuindo para o ambiente enigmático que teve Tõ Yõ como abertura do dia, banda japonesa que nos permitiu iniciar a maratona de concertos de forma relaxada e serena com o seu psicodelismo único. Apaixonante para muitos, a intensidade niponica ia subindo e os que assistiam aumentando cada vez mais, enfeitiçados pelo chamamento sonoro tão especial.
A contrastar seguiram-se os Nagasaki Sunrise, sempre a rasgar num thrash com tonalidades de punk, fizeram abrir um pouco o sol e os circle pits na multidão. Concerto rápido e cru, cheio de atitude que permitiu deslizar da viagem anterior e entrar um pouco no caos.
Continuando com toada nacional, tivemos os Sunflowers, portuenses que iniciaram o concerto logo com uma mensagem ou antes um manifesto de protesto anti-censura, ditadura e opressão, assumindo claramente uma postura longe de ser moderada e muito bem, a servir de exemplo a quem estivesse com receio de assumir uma posição em tempos tão conturbados. A destacar: a energia visceral de Carolina na bateria, devo confessar que foi a primeira vez que os vi e valeu a pena, continuaram o bailarico iniciado pela apresentação anterior, até um deles se juntou ao público a ajudar a esta festa contagiante.
Quem tivesse chegado ao recinto neste dia pensaria que estaria num jardim encantado, pois o mesmo tinha sido invadido por gnomos, seres de barretes pontiagudos vermelhos e grandes sorrisos por todo o lado, mas nada a recear, era apenas a fanbase da atração que se seguiu, os Gnome, aliás o barrete vermelho foi o item de merchandise que esgotou em poucos minutos nesse dia, todos se queriam juntar ao clã. Gnome foram estreantes em solo nacional, mas muitos quiseram participar deste ajuntamento místico com grandes doses de humor que nos trouxe peso e diversão, um equilíbrio perfeito para um momento bem passado em festa e comunhão.
A contrastar posteriormente um momento mais intimista e solene, quase que se poderia dizer: “Silêncio, que vai cantar a Emma Ruth Rundle“. De semblante sério mas emotivo, Emma transportou o público numa viagem imersiva e melancólica. Aos primeiros acordes a serenidade invadiu o público, o qual respeitoso, bebia cada acorde de Emma com respeito cerimonial. Mesmo sem banda de apoio e com uma imensidão de gente a querer escutar, Emma superou a fragilidade aparente e arrebatou o público com toda a sua intensidade.
Este dia, como já puderam ver pelas linhas escritas, revelou-se uma montanha-russa de sensações, do melódico e introspectivo, ao caos e à festa, mas não fez mal nenhum, estávamos todos prontos para o desafio e sempre dispostos a corresponder emotivamente. O Chalk, trio de Belfast, veio acordar-nos do sonho, com ritmos fortes de post-punk e eletrónica a permitir a dança com ritmos pulsantes e estimulantes a iniciar uma certa rave obscura de noise, techno e gótico.
De novo o descanso físico e a viagem mental e sensorial com os germânicos My Sleeping Karma, psychedelic rock terapêutico pleno de misticismo e espiritualismo, transportando a multidão para um transe ritualístico ou uma meditação coletiva. Witchcraft, bastante conectados ao ADN Sonicblast, mais ligados ao Doom, portadores de uma atmosfera mais densa, mais obscura que envolveu o público e alimentou-o com riffs pesados, um baixo denso e bateria intensa.
Depois da meditação voltávamos à rave com o duo Dame Area, Silvia e Victor revelaram-se poderosos no manobrar da multidão com ritmos eletrónicos, industriais que levaram à libertação corporal de cada um, conquistando o público a cada batida, a cada grito estridente, a cada ritmo maquinado.




























































































































































Dia 3
Terceiro dia e as mazelas começam a pesar, começávamos a pensar que já não temos idade para isto, mas, de repente, o sol brilhava e o desejo de querer gozar mais um dia de paraíso sónico vencia qualquer cansaço carregado nos costados. Messa puxava por nós, banda de abertura com honras de palco principal neste dia e, pela quantidade de público que afluiu, percebemos que muitos queriam ver os italianos pela primeira vez. A voz potente e hipnótica de Sara invadiu todo o recinto, proporcionando uma atmosfera envolvente e emotiva, um concerto intenso mesmo acontecendo tão cedo no lineup.
The Atomic Bitchwax, bem conhecidos dos festivaleiros seguidores do Sonicblast, trouxeram-nos uma performance divertida, cheia de rock n’ roll, a esquentar um dia já por si bastante acalorado.
De New Jersey onde todos saboreamos e dançamos ao som do thunder-boogie dos Atomic fomos até Nova Iorque, para descansarmos um pouco e entrarmos na viagem meditativa de King Buffalo, uma ambiência mais atmosférica, hipnótica, resultante da fusão de psych, stoner e blues. onde o instrumental foi competente e cativou o público, sendo considerado um dos melhores concertos desta edição por muitos.
Seguiram-se os canadianos Dead Ghosts, surf e garage, com psicodelismo à mistura, saxofone a dançar com as guitarras, encaixe perfeito para a tarde ensolarada que nos embalava neste dia, cativando a boa dose de público que se tinha juntado para assistir.
Monolord, um dos grandes nomes do dia, responsáveis por uma enorme multidão sedenta para levar com a jarda de doom arrastado que nos levava a abanar a cabeça em movimentos ritualísticos e a fechar os olhos para sentir com ainda mais intensidade. Riffs poderosos, baixo arrastado, vocalizações ecoadas por temas esmagadores como ‘Rust’, ‘Empress Rising’ e ‘The Last Leaf’.
Estávamos com expectativa para Patriarchy, ainda não os tínhamos visto, um duo intenso e provocador, sedento de atenção, ou não nos tivessem convidado para ficar um pouco mais e fotografar à vontade. De postura confrontacional e disruptiva corresponderam à adesão do público com uma performance intensa e desafiadora, numa mistura de dark wave e industrial com percussão dramática e marcante que fez a multidão vibrar e dançar a cada batida escutada.
Pensou-se que senhores Circle Jerks, provavelmente estavam mais calmos, coisas da idade e das décadas de história e legado de punk hardcore que carregavam, mas logo vimos que a essência continuava a mesma, a rapidez não diminuiu durante os quase 30 temas e só estancou com os monólogos instrutivos e didáticos de Keith Morris, decidido a ensinar aos mais novos história musical. Estes pequenos intervalos discursivos serviam para a multidão recuperar o fôlego para entrar no crowdsurf e na anarquia do tema seguinte, um excelente e muito aguardado concerto, memorável para os que participaram neste evento.
Quase não pudemos sair do lugar pois o público também foi muito para uma aposta fora da caixa no palco principal do Sonicblast, os bielorrussos Molchat Doma, grupo muito bem quisto pelos fãs mais góticos, pela sua sonoridade ligada ao post punk, dark-wave e synthpop, atraiu no entanto uma grande multidão expectante para os ver e dançar. A sua discografia é jovem, mas chamativa e bastante hipnótica, mergulhando os presentes em obscuridade e ritmo, como se de repente estivéssemos numa batcave qualquer a ondular o corpo ao som de ritmos fascinantes, mimetizando os passos de dança do vocalista Egor.
Castle Rat já tinha sido tão memorável no dia de recepção do Sonicblast e repetiram a dose para quem os quis rever e para quem os tinha perdido neste dia final. De sublinhar todo o dramatismo não só na voz e melodia como na questão visual, que nos puxava e atraia, como se estivéssemos a ouvir um conto à volta da fogueira do campismo. Sonoridade ritualística, teatralidade épica são palavras impressas no nosso cérebro quando nos lembramos da performance de Castle Rat, todos fomos liderados e tomados pela Rat Queen Riley Pinkerton, magnética e sensual, poderosa e intensa no olhar e pelas restantes personagens deste conto fantasista e medieval.
Chegamos ao fim do nosso caminho com Dopethrone, a recuperar o sludge e o doom ao palco principal, com ritmos devastadores, jarda brutal a esmagar cada elemento do público, que correspondeu com entrega incessante recheada de moshpits e crowdsurfing a saborear os momentos finais deste grandioso acontecimento.












































































































































As memórias deste Sonicblast ficarão guardadas com carinho até que chegue a próxima, agendada para os dias 6, 7 e 8 de agosto do próximo ano.
Um agradecimento especial à organização pelo trabalho dedicado, pela simpatia e por proporcionar momentos inesquecíveis a todas as pessoas presentes nesta edição de 2025.
Texto por Miguel Brandão e fotos por Helena Granjo.
































































































































































