Na primeira semana de novembro, a Balaclava Records — um dos principais selos brasileiros de música alternativa — presenteou o público indie paulistano com uma intensa programação de shows. Em poucos dias, o selo reuniu nomes consagrados do indie e do shoegaze, com destaque para a aguardada apresentação do Cap’n Jazz, grupo seminal do movimento emo, além da realização de seu próprio festival, o Balaclava Fest, que trouxe atrações de peso como Stereolab, Yo La Tengo, Geordie Greep e Horse Jumper of Love. Algumas dessas bandas ainda aproveitaram a passagem pelo Brasil para se apresentar em clubes da capital, em colaborações com artistas da cena local, como a terraplana, uma das principais revelações do shoegaze nacional.
Mas a Balaclava não deu tempo para o público se recuperar da maratona de shows. Mantendo o clima de celebração, o selo promoveu, na terça-feira (12), um evento dedicado aos fãs do rock oitentista: o aguardado show do Primal Scream, realizado na casa Audio, na Barra Funda (zona oeste de São Paulo). O espetáculo marcou o retorno dos escoceses à cidade após sete anos e fez parte da turnê internacional de divulgação de seu mais recente álbum, Come Ahead, lançado no fim de 2024.
Formado em Glasgow, em 1982, o grupo é uma das bandas mais influentes do rock alternativo britânico. Liderado pelo carismático Bobby Gillespie, o conjunto construiu uma trajetória marcada pela experimentação sonora, transitando entre o rock psicodélico, o indie, o dance rock e a música eletrônica. O reconhecimento mundial veio com o álbum Screamadelica (1991), considerado um marco da música dos anos 1990 por fundir guitarras ácidas, grooves dançantes e batidas de acid house — um trabalho que rendeu ao grupo o prestigiado Mercury Prize e consolidou seu status de ícone da contracultura britânica.
As portas da Audio foram abertas ao público por volta das 19h30. Sem banda de abertura, coube a uma animada discotecagem aquecer a pista antes da atração principal. Enquanto isso, os primeiros presentes puderam visitar a barraca de merchandising, que trazia, além de camisetas e discos, alguns títulos da editora Terreno Estranho — com destaque para “Garoto do Cortiço”, biografia oficial de Bobby Gillespie, o icônico frontman do Primal Scream.
Pontualmente às 21h30, Bobby Gillespie, Andrew Innes (guitarra, teclados e vocais de apoio), Darrin Mooney (bateria e percussão) e Simone Butler (baixo, teclados e percussão) e alguns músicos de apoio subiram ao palco ao som de ‘Don’t Fight It, Feel It’, faixa emblemática de Screamadelica. A canção, com sua mistura de groove dançante e guitarras pulsantes, foi recebida com euforia. Na sequência, veio ‘Love Insurrection‘, do mais recente álbum Come Ahead (2024), com um refrão contagiante. O ritmo rock’n’roll retornou em ‘Jailbird‘, marcada por um riff potente que levou o público a acompanhar com palmas. Contudo, o volume excessivo da guitarra de Innes acabou ofuscando os vocais de Gillespie, um problema que persistiu durante ‘Deep Dark Waters’ — embora muitos fãs parecessem ignorar a falha, embalados pela energia da performance.

Depois da sequência mais barulhenta, o repertório mergulhou na faceta mais alternativa e psicodélica do Primal Scream. ‘Innocent Money’ trouxe um groove dançante conduzido pelo baixo e pelo saxofone, com merecido destaque para as backing vocals, que finalmente ganharam espaço. Em seguida, ‘Heal Yourself’ apresentou um clima introspectivo e arranjo suave, enquanto ‘I’m Losing More Than I’ll Ever Have’ combinou guitarras de pegada reggae-rock e fortes influências dos Rolling Stones, coroada por um excelente solo de Innes. A intensidade retornou com ‘Love Ain’t Enough’, que abriu caminho para o clima eletrônico e sintético de ‘The Centre Cannot Hold’.
Na reta final, Gillespie extraiu as últimas forças do público com ‘Swastika Eyes’ e o megahit ‘Movin’ On Up’, momento de pura comunhão entre banda e plateia. O bis trouxe uma mescla entre clássicos e surpresas: ‘Damaged’, ‘Rocks’ e um energético cover de ‘No Fun’, dos Stooges, incluído no set desde o início da turnê. Antes de encerrar, Bobby ergueu a bandeira da Palestina, em um gesto simbólico de posicionamento político.
Com mais de quatro décadas de estrada, o Primal Scream mostrou que continua em plena forma, dominando com precisão sua fórmula única — ora explorando o barulho e a atitude do rock clássico, ora mesclando influências alternativas, eletrônicas, blues e reggae. Uma apresentação que reafirma a originalidade e a vitalidade de uma das bandas mais inventivas da música britânica.
Fotos: Raíssa Corrêa (credenciada pelo site Rarozine)
Setlist – Primal Scream
Don’t Fight It, Feel It
Love Insurrection
Jailbird
Deep Dark Waters
Innocent Money
Heal Yourself
I’m Losing More Than I’ll Ever Have
Love Ain’t Enough
The Centre Cannot Hold
Swastika Eyes
Movin’ On Up
Damaged
Rocks
No Fun
Agradecimento especial – Maria Correia (Heavy Metal Online / Metal No Papel)











