A comunidade de Vila Praia de Âncora transformou-se, mais uma vez, no laboratório ideal para as correntes mais densas do rock alternativo. Na sua 14.ª edição, o SonicBlast Fest 2026 evitou o desgaste comercial e focou-se na pureza do som. O festival ofereceu uma curadoria artística que desafiou os limites do peso e da distorção.

Dia 1 (6 de agosto): Dissonância Moderna e Transgressão de Barreiras

O primeiro dia oficial de concertos focou-se na vanguarda do metal alternativo contemporâneo. O grande destaque conceptual pertenceu aos Chat Pile. O seu noise rock niilista e sufocante traduziu-se numa atuação desconfortável, crua e artisticamente brilhante. 

Antes, os Deafheaven assinaram uma exibição impecável de blackgaze. A banda moveu-se com extrema facilidade entre a violência dos gritos do black metal e as paisagens melódicas e espaciais do shoegaze

A energia mais direta e rockeira ficou por conta do speed/black metal dos Midnight e do hardcore punk caótico dos Trash Talk. No lado psicadélico, os Frankie and the Witch Fingers injetaram uma dose necessária de groove garageiro e distorção ácida. 

Já os misteriosos britânicos Snapped Ankles trouxeram as suas batidas post-punk tribais disfarçados de árvores.


Dia 2 (7 de agosto): A Velha Escola, o Regresso Sludge e a Muralha de Som

A sexta-feira concentrou uma impressionante quantidade de lendas e foi um autêntico teste de resistência física e auditiva. A sexta-feira concentrou uma impressionante quantidade de lendas e foi um autêntico teste de resistência física e auditiva. O concerto de regresso dos Kylesa foi um dos pontos altos do festival. O ataque icónico da bateria criou uma massa de som tridimensional, misturando sludge e psicadelia de forma brilhante.  

Os canadianos Voivod deram uma autêntica lição de sofisticação com o seu thrash progressivo cheio de acordes dissonantes. Logo a seguir, os britânicos Conan criaram uma das exibições mais físicas do festival. O trio não procurou a velocidade, mas sim esmagar a audiência através de riffs ultra-graves e de uma parede de som opressiva.

A reta final da noite mudou o foco para a urgência performativa. Os Turbonegro assumiram o papel de grandes animadores com o seu deathpunk teatral e refrões ganchudos. No lado mais extremo, o street punk clássico dos The Casualties gerou os moshpits mais caóticos do dia no Palco 2.

Dia 3 (8 de agosto): O Pôr do Sol Grego, Viagem Progressiva e Apoteose

O encerramento exigiu atenção redobrada devido à enorme qualidade das propostas pesadas. Ao cair da tarde, as atenções viraram-se para o Palco Principal, onde os gregos 1000mods assinaram uma das exibições mais celebradas do dia. A banda disparou hinos de stoner rock infeciosos e carregados de fuzz. O concerto foi um exemplo perfeito de como conciliar o peso do género com dinâmicas orelhudas, fazendo o público saltar em uníssono enquanto o sol se deitava sobre o Atlântico.

Logo a seguir, o clímax artístico e técnico pertenceu aos Elder. Os norte-americanos assinaram uma exibição irrepreensível de rock progressivo moderno. As composições longas e fluidas moveram-se entre passagens espaciais e explosões pesadas, mostrando uma química instrumental perfeita.

A fechar o festival, os High On Fire, liderados pelo imponente Matt Pike, entregaram uma descarga ininterrupta de thrash/stoner musculado. Foi uma celebração pura do volume e do suor que encerrou o evento em apoteose.

O SonicBlast 2026 afirmou-se pela maturidade da sua curadoria. Mais do que apostar em grandes nomes de rádio, o festival garantiu um alinhamento coeso onde cada banda contribuiu para contar a história e a evolução da música pesada moderna.

A organização já confirmou o 15.º aniversário para os dias 12 a 14 de agosto de 2027, deixando a fasquia bastante elevada.





Texto e fotos por Helena Granjo.

Por Helena Granjo

Fotógrafa radicada no norte de Portugal.