Durante as décadas de 1970 e 1980, nos Estados Unidos, o punk rock esteve entre os principais desdobramentos do rock, especialmente no cenário independente. No entanto, a partir dos anos 1990, com a ascensão do grunge, o estilo acabou sendo relegado ao segundo plano. Inconformado com essa decadência, um grupo de punks de rua de Nova York decidiu reagir e tentar resgatar a era de ouro do movimento. Inspirados por bandas como The Exploited, Charged GBH e Discharge, eles adotaram não apenas a sonoridade agressiva, mas também a estética rebelde e exótica, com moicanos coloridos, roupas rasgadas e jaquetas cobertas de patches. Assim nasceu o The Casualties, que se tornaria um dos maiores representantes do punk rock contemporâneo.

Após 11 anos desde sua última passagem pelo Brasil, o grupo retornou no último sábado (21), com o Hangar 110 servindo como palco da celebração - e dificilmente haveria lugar mais simbólico, já que o espaço é considerado o ‘templo do punk rock paulistano’. O show marcou não apenas o reencontro da banda com o público brasileiro, mas também a estreia do vocalista David Rodriguez no país. Ele assumiu os vocais após a saída do frontman original Jorge Herrera, afastado em meio a acusações de assédio.

No dia do evento, a Rua Rodolfo Miranda parecia ter saído diretamente de um cenário do filme SLC Punk! - dezenas de pessoas circulavam ostentando moicanos coloridos e espetados, piercings improvisados com objetos manuais, jaquetas repletas de logos de bandas, maquiagem pesada e coturnos surrados. Sem dúvida, fazia algum tempo que o endereço não recebia tantos punks.

A abertura da noite ficou por conta do Agrotóxico, banda veterana com mais de 30 anos de estrada, frequentemente escalada para aquecer o público antes de apresentações internacionais em São Paulo. Em 2022, por exemplo, dividiram o palco com os escoceses do The Exploited - naquela ocasião, porém, o show foi marcado por uma briga que comprometeu parte do set. Desta vez, salvo alguns efeitos de microfonia e falhas no som da guitarra, tudo correu muito bem: o quarteto entregou um show energético, percorrendo sua discografia com faixas como ‘Eles Não Vão Parar’, ‘Zona Ocupada’, ‘Epidemia’, ‘Números de Guerra’, ‘Fim do Mundo’ e ‘Bom Dia Bagdá’. Com um hardcore veloz, agressivo e direto, os riffs cortantes e os skank beats eram executados em ritmo alucinante. Entre as músicas, o vocalista Jeferson intercalava mensagens políticas, com destaque para comentários sobre os recentes conflitos no Oriente Médio. Trata-se de uma banda tecnicamente afiada e com letras contundentes - tão relevantes hoje quanto eram nos anos 2000.



Após a saída do Agrotóxico, os roadies começaram a preparar o palco para o The Casualties. No entanto, uma falha nos retornos acabou comprometendo a montagem e atrasou o início do show em mais de 15 minutos. Finalmente, sob um backdrop muito bem feito que simulava um muro pichado com o logo da banda e ao som das intros de ‘The Final Countdown’ e ‘Blitzkrieg Bop’, surgiram David Rodriguez (vocal), Jake Kolatis (guitarra), Doug Wellmon (baixo) e Marc ‘Meggers’ Eggers (bateria), mandando logo de cara ‘Under Attack’, faixa-título do álbum de 2006. Ainda assim, problemas técnicos persistiram: a guitarra apresentou falhas constantes, com ruídos e quedas de som. David, por sua vez, compensou com uma postura enérgica e feroz, chegando a jogar o microfone para a plateia cantar junto.

A sequência manteve o fôlego com ‘1312‘, recebida com um coro uníssono do público, e ‘Get Off My Back’, que começou com uma linha marcante de contrabaixo e batidas aceleradas no surdo - receita perfeita para um circle pit caótico. Em ‘Written in Blood’ e ‘Chaos Sound’, David berrava a plenos pulmões, abusando do drive vocal com tanta intensidade que ficava a dúvida: até quando será possível sustentar esse nível de entrega sem danos à voz? O primeiro bloco foi encerrado com ‘Ashes of My Enemies’, quando o vocalista convocou a plateia a pular - e foi amplamente atendido.



A partir desse momento, David passou a convidar o público a subir no palco. Em ‘Nightmare‘, interagiu com um fã vestindo uma camiseta do Cólera e o ajudou a realizar um stage dive. Já em ‘We Are All We Have’ - maior hit do grupo - o palco foi literalmente invadido, e mesmo com fãs agindo de forma invasiva, como um rapaz que literalmente aplicou um mata-leão em David para pegar o microfone, o vocalista manteve o bom humor. A interação intensa continuou em ‘Pigs on Fire‘, novo single que destaca o coro: Fogo nos racistas / Fogo nos racistas / Fogo neles / Viva nóis!, com o vocalista comandando a pista como um maestro. Em ‘Riot‘, David desceu para o meio do público, elevando ainda mais a conexão com a plateia. Esse bloco também incluiu um cover energético de ‘Blitzkrieg Bop‘ e músicas como ‘Made in N.Y.C.’, ‘Ya Basta’ e ‘My Blood, My Life, Always Forward’.

No bis, o nível de insanidade atingiu o auge: David se atirou do mezanino do Hangar 110 e cantou a última música ‘Unknown Soldier‘ sendo carregado nos braços dos fãs.

Sem dúvida, foi uma noite histórica - uma verdadeira celebração punk. The Casualties demonstra uma qualidade técnica surpreendente dentro do gênero, e David Rodriguez provou ser um frontman de exceção, explorando com máximo de eficiência o espírito punk de derrubar as barreiras entre artistas e público.

Fotos: Raíssa Corrêa - Credenciada pelo site Sonoridade Underground






Setlist - The Casualties

  1. Under Attack
  2. 1312
  3. Get Off My Back
  4. Written in Blood
  5. Chaos Sound
  6. Ashes of My Enemies
  7. Nightmare
  8. We Are All We Have
  9. Resistance
  10. On the Front Line
  11. Borders
  12. Pigs on Fire
  13. Made in NYC
  14. Blitzkrieg Bop (Ramones cover)
  15. Running Through the Night
  16. Riot
  17. Ya Basta
  18. Punk Rock Love
  19. My Blood, My Life, Always Forward

Bis:
20. Corazones Intoxicados
21. Unknown Soldier

Texto: Guilherme Góes
Agradecimento especial: Maria Correia (Heavy Metal Online / Metal No Papel)

Por Guilherme Góes

Estudou jornalismo na Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Apaixonado por música desde criança e participante do cenário musical independente paulistano desde 2009. Além da Hedflow, também costuma publicar trabalhos no Besouros.net, Sonoridade Underground, Igor Miranda, Heavy Metal Online, Roadie Crew e Metal no Papel.