Formada em 2002, na cidade do Rio de Janeiro, a banda Menores Atos começou sua trajetória de maneira modesta, com o lançamento independente do álbum ‘Vozes, Distorção e Trechos de Nossas Vidas’. Com influências de emo, hardcore e screamo, o trabalho passou quase despercebido na cena, mas marcou o início de uma identidade sonora autêntica.
Após um longo período de hiato e mudanças na formação, a virada veio em 2014 com o aclamado ‘Animalia‘, considerado por muitos um dos discos mais relevantes do rock alternativo brasileiro da década passada. Em 2018, o trio consolidou seu espaço com ‘Lapso‘, impulsionado por faixas como ‘Miopia’, ‘No Espelho’ e ‘Amanhã’. O sucesso do álbum levou a banda a grandes palcos, como Rock in Rio e Lollapalooza, além de render elogios da crítica especializada.
Seis anos depois de seu último trabalho completo, o grupo lançou, em janeiro deste ano, ‘Fim do Mundo’ — álbum que dá continuidade à fórmula emocional e introspectiva do trabalho anterior, com letras pessoais e arranjos acessíveis. Lançado pela gravadora Deck Disc, o disco propõe uma narrativa conceitual dividida em três etapas, utilizando o imaginário do apocalipse como metáfora para dilemas íntimos e existenciais.
Após o show de lançamento oficial em abril, no palco do Cine Joia, o trio voltou a São Paulo no sábado, 12 de julho, para uma apresentação intimista na Casa Natura Musical — uma das principais casas de espetáculo da capital, conhecida pela excelente infraestrutura e qualidade de som.
Para abrir a noite, a responsabilidade ficou com o trio instrumental de math rock Odradek, vindo diretamente de Piracicaba. Curiosamente, outra banda instrumental, E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, também participou do show de lançamento de Lapso, em 2018 — uma conexão que reforça o elo da Menores Atos com a cena instrumental nacional. O Odradek apresentou um som técnico e atmosférico, marcado por viradas intensas, riffs intricados — que pareciam seguir fórmulas matemáticas — e uma presença de palco vibrante. Fabiano Benetton (guitarra) e Tomas Gil (baixo) se movimentavam intensamente de um lado ao outro do palco, dando vida à performance. As faixas transitavam entre momentos de tranquilidade e explosões de energia e ruído, criando um contraste curioso. O cenário, com iluminação baixa e cores densas, colaborou para a construção de uma atmosfera imersiva. Além de músicas conhecidas do excelente álbum ‘Liminal‘ (2022), o trio também apresentou faixas inéditas que devem integrar um futuro EP.

Após uma breve pausa para ajustes no palco, Cyro Sampaio (guitarra e voz), Celso Lehnemann (baixo) e Thales Stipp — baterista da banda Zander, substituindo Gustavo Marquardt — deram início à apresentação com as inéditas ‘Pronto para Sumir’ e ‘Sorte’, faixas de abertura do recém-lançado ‘Fim do Mundo’. O público acompanhou com entusiasmo, como se fossem clássicos já conhecidos. Na sequência, vieram ‘Devagar’ e ‘Passional’, resgatando o espírito do underground nacional dos anos 2010. Voltando aos destaques do novo álbum, veio ‘Furacão’, que se sobressaiu com sua introdução de bateria minuciosamente construída, e ‘Terremoto’ — um dos principais singles do disco, que também ganhou videoclipe já disponível nas redes sociais.
O segundo bloco do show trouxe um setlist que percorreu diferentes fases da trajetória da banda. Entre faixas secundárias, como ‘Breu’ (do EP Lúmen), e sucessos como ‘Amanhã’, ‘Miopia’ e o single ‘Pressa’ (Lapso), também apareceu ‘Gravidade’, do novo trabalho. Como de costume nos shows da banda, o encerramento veio com ‘Sereno’, clássico de Animalia, com Cyro dividindo o refrão com o público. O bis ficou por conta da emotiva ‘Sobre Cafés e Você’, fechando a noite em tom catártico.
Com um show coeso e carregado de emoção, o Menores Atos reafirmou sua relevância na cena alternativa brasileira. Ao lançar um disco maduro e conceitual sem perder a identidade que marcou sua trajetória, o trio prova sua capacidade de se reinventar. Fim do Mundo representa não apenas uma evolução estética e lírica, mas também um marco que pode levá-los a voos ainda mais altos — sem jamais perder o vínculo com sua base fiel de fãs.
