Sem dúvida, Ado é hoje uma das artistas mais criativas e impactantes da música contemporânea. A cantora japonesa iniciou sua trajetória em 2017, aos 14 anos, quando começou a publicar covers como utaite (intérprete amadora de músicas feitas para Vocaloid) na plataforma Niconico Douga. O sucesso, porém, veio em 2020 com o single “Usseewa”, que rapidamente se tornou um fenômeno não apenas no Japão, mas em todo o mundo.
Desde então, a jovem lançou sucessos marcados por uma sonoridade que transita entre J-pop, rock, heavy metal, Vocaloid e influências eletrônicas, sempre com interpretações intensas e carregadas de emoção. Esse estilo único consolidou sua posição como estrela mundial. Em agosto de 2025, Ado acumula mais de 6 milhões de ouvintes mensais no Spotify — número que a coloca acima de nomes consagrados da música internacional, como Jason Mraz, Johnny Cash, Korn e The Cure.
Um dos aspectos mais intrigantes de sua carreira é o anonimato: apesar da fama, a cantora nunca mostra o rosto. Em seus shows, apresenta-se dentro de uma estrutura semelhante a uma jaula, exibindo apenas a silhueta, enquanto clipes e materiais oficiais a retratam por meio de ilustrações inspiradas em anime.
Atualmente, Ado está em meio à sua turnê mundial, a “Hibana World Tour”, que tem passado por diversas cidades do planeta. E, claro, o Brasil não ficou de fora — afinal, o país abriga a maior comunidade japonesa fora do Japão e é um dos maiores consumidores da cultura otaku. Na última quarta-feira (13), a artista fez uma apresentação marcante em São Paulo, no Espaço Unimed, consolidando ainda mais sua conexão com o público brasileiro.
Show desfavorável para profissionais de imprensa
Para preservar o anonimato de Ado, o público precisou seguir regras rígidas: não era permitido fotografar, filmar, usar binóculos ou sequer tirar o celular do bolso para anotações rápidas. Placas com advertências estavam espalhadas por toda a casa de espetáculos, e quem fosse flagrado infringindo as regras era convidado a se retirar imediatamente. Essa política, embora compreensível dentro da proposta da artista, tornou o evento menos acessível para profissionais da mídia, que ficaram impossibilitados de registrar imagens para redes sociais ou mesmo escrever em tempo real.

“I’m ready for my show”
O espetáculo estava previsto para começar às 20h30, mas só teve início às 21h15 — atraso incomum, já que artistas japoneses costumam ser extremamente pontuais. Acompanhada por músicos de rosto descoberto, Ado abriu o set com “Usseewa”, em uma sonoridade surpreendente que transitava do pop dançante até batidas com skank beat quase hardcore.
O repertório seguiu com sucessos como “Lucky Bruto”, “Gira Gira”, “Show” e “Kura Kura”, além de covers como “Stay Gold” e “Aishite Aishite Aishite”. Cada canção era reforçada por visuais inspirados no universo dos animes: lasers, projeções em LED e jogos de luz que transformavam o palco em um espetáculo à parte, comparável ao de grandes nomes do pop internacional.
A banda mostrou competência precisa, com solos de guitarra envolventes, batidas fortes e teclados bem estruturados. Já Ado, protegida em sua “jaula” e exibindo apenas a silhueta, conquistava o público dançando ao ritmo das músicas e impressionando pela versatilidade vocal. Sua performance alternava momentos suaves e explosões intensas com naturalidade rara de se ouvir ao vivo.
Durante boa parte do show, a cantora manteve-se reservada, mas, perto do final, decidiu interagir com os fãs. Misturando inglês, japonês e até algumas palavras em português, comentou suas impressões sobre o Brasil — elogiou o clima, falou sobre o açaí e compartilhou detalhes de sua experiência no país. Antes do bis, que trouxe “ROCKSTAR”, um cover de “Chandelier” (Sia) e a grandiosa “Shin Jidai”, a artista emocionou ao falar por mais de 20 minutos sobre sua história. Revelou episódios difíceis, como os tempos em que cantava escondida dentro de um quarto escuro e a falta de apoio até mesmo da mãe, que não acreditava em seu talento. A resposta do público foi imediata: gritos, aplausos e energia em nível máximo. Por trás da silhueta e das animações, fica claro que existe um talento excepcional.
Ado sabe transformar o palco em uma experiência multimídia de alto nível, unindo excelência musical, impacto visual e criatividade — um verdadeiro marco da música contemporânea.
Fotos: Nogami Aya (disponibilizadas pela assessoria Midiorama)
Setlist
- Usseewa
- Lucky Bruto
- Gira Gira
- Show
- Kura Kura
- Readymade
- MIRROR
- Charles
- Elf
- Value
- Stay Gold
- RuLe
- Utakata Lullaby
- Aishite Aishite Aishite
- Gyakkou
- Hibana
- Episode X
- Odo
Bis
- ROCKSTAR
- Chandelier
- Shin Jidai






