Ao longo de agosto, a NDP — produtora que desde o início de 2024 vem trazendo diversos shows de pop punk e hardcore a São Paulo — surpreendeu ao diversificar seu casting de atrações. Nesse período, promoveu apresentações do Cradle of Filth, Uada e do The 69 Eyes, grupos que transitam pelo metal sinfônico/black metal e pelo death rock/post-punk, estilos bem distantes do perfil habitual da marca. Já em setembro, a produtora retomou seu ‘carro-chefe’ com estilo. No último domingo, dia 14, destacou a vinda da banda inglesa Boston Manor, um dos grandes nomes da cena underground mundial. O evento ocorreu no clube City Lights, mesmo espaço que sediou as recentes gigs de Miss May I, Lionheart e Touché Amoré.

Formada em 2013, na cidade de Blackpool, o grupo se consolidou como um dos nomes mais criativos do rock contemporâneo dentro do estilo conhecido como ‘post-grunge’. Ao lado de conjuntos como Turnover, Movements, Trophy Eyes, Title Fight e Knuckle Puck, o Boston Manor ajudou a moldar um som que mescla emo, pop punk, hardcore melódico e grunge. Discos como ‘Welcome to the Neighbourhood’ (2018) e ‘GLUE’ (2020) marcaram essa evolução sonora, ampliando seu alcance para um público mais diverso.

Para aquecer a plateia, duas bandas da nova safra nacional: Maré Morta e Swave. A primeira, formada no Rio de Janeiro, nasceu de uma amizade de mais de uma década, mas só ganhou vida em 2022. Mesmo em pouco tempo, conquistou espaço relevante na cena, abrindo shows de nomes como Gloria e Menores Atos e recebendo elogios da mídia independente com o EP ‘Nada Mudou’. Em sua estreia em São Paulo, a banda apresentou um pop punk/emo denso e melancólico, com destaque para faixas como ‘703D’ e ‘Nada Mudou’.



Já a Swave, embora também recente, tem presença marcante no cenário local, com participações em eventos como o Oxigênio Festival 2024. Formada por ex-integrantes de conjuntos como Violet Soda, Far From Alaska e Supercombo, a banda aposta em uma estética fortemente inspirada no grunge dos anos 1990 e com composições em português — uma escolha que contrasta com os trabalhos anteriores dos músicos. No repertório, canções como ‘Mais uma vez’, ‘Já foi’ e ‘Longe de mim’, do álbum ‘Foi o que deu para fazer’, lançado neste ano, marcaram presença no setlist. A performance da vocalista Aline Mendes foi o ponto alto: com presença de palco contagiante, desceu diversas vezes para cantar junto ao público e até conduziu uma brincadeira coletiva, pedindo que todos se abaixassem e levantassem sob seu comando. Um momento que confirmou a Swave como uma das apostas do underground nacional.



Com a casa já completamente cheia, Bruno Genaro, responsável pela NDP, fez o que já virou tradição: anunciou alguns spoilers das próximas atrações da produtora. Em seguida, os integrantes do Boston Manor surgiram no palco e abriram com ‘Floodlights on the Square’, destaque do álbum ‘Datura‘ (2022), incendiando a pista e gerando uma onda de stage dives e moshpits. Logo depois, vieram três faixas de ‘Sundiver‘, seu trabalho mais recente. ‘Container‘ empolgou com um refrão vibrante, que levou o público a cantar em coro. ‘Sliding Doors’ trouxe uma atmosfera densa, lembrando algo da pegada do Deftones, com vocais intensos e riffs pesados que mantiveram a roda ativa. Já ‘Why I Sleep’ apresentou uma base igualmente robusta, mas com um andamento mais suave, mostrando a versatilidade do grupo dentro de um mesmo disco.

Em um dos momentos de maior interação, o vocalista Henry Cox expressou a felicidade de tocar pela primeira vez no Brasil e emendou a fala com ‘England’s Dreaming’, uma das faixas mais voltadas ao pop do álbum ‘Welcome to the Neighbourhood’ (2018). A empolgação foi tanta que o próprio Henry se jogou em um stage dive. A surpresa veio logo depois com ‘Lead Feet’, resgatada de ‘Be Nothing’ (2016), recebida em coro pelo público. Na sequência, ‘Ratking’ e ‘I Don’t Like People (& They Don’t Like Me)’ soaram como potenciais hits radiofônicos, com uma sonoridade mais acessível e próxima do mainstream.

O show seguiu explorando diferentes fases da carreira, alternando momentos mais próximos ao pop punk, outros de atmosfera grunge e até faixas claramente orientadas ao grande público, como as belíssimas ‘Algorithm‘ e ‘Halo‘. Em diversos momentos, a banda quebrou a barreira entre palco e plateia, incentivando uma participação intensa dos fãs. Atendendo a pedidos, tocaram também ‘Liquid’, reforçando a proximidade com o público. Para encerrar, vieram ‘Passenger’ e ‘Foxglove’, recebidas como verdadeiros hinos.



O Boston Manor reafirmou sua identidade como uma banda extremamente criativa, capaz de transitar por diferentes vertentes do rock contemporâneo sem perder originalidade. Ainda que caminhem cada vez mais em direção a uma sonoridade voltada ao mainstream, sua entrega ao vivo preserva a energia e a autenticidade do underground — uma combinação rara e poderosa.

Fotos: Gustavo Palma




Setlist

Floodlights on the Square

Container

Sliding Doors

Why I Sleep

England’s Dreaming

Lead Feet

Ratking

I Don’t Like People (& They Don’t Like Me)

Bad Machine

Algorithm

Cu

Laika

HEAT ME UP

Halo

Liquid

Crocus

Passenger

Foxglove


Texto: Guilherme Góes
Agradecimento especial: Maria Correia (Heavy Metal Online / Metal no Papel)

Por Guilherme Góes

Estudou jornalismo na Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Apaixonado por música desde criança e participante do cenário musical independente paulistano desde 2009. Além da Hedflow, também costuma publicar trabalhos no Besouros.net, Sonoridade Underground, Igor Miranda, Heavy Metal Online, Roadie Crew e Metal no Papel.