Inspirado em ícones do R&B como The Supremes, The Shirelles, James Brown, Jackie Wilson e Diana Ross, além de abordar os bastidores do show business, o musical DREAMGIRLS é reconhecido como um dos maiores sucessos da Broadway. Idealizada por Henry Krieger e Tom Eyen, a peça estreou oficialmente em 10 de dezembro de 1981, no Imperial Theatre, e rapidamente conquistou público e crítica. Foi indicada a 13 prêmios Tony, incluindo o de Melhor Musical, e venceu seis. Em 2006, ganhou uma adaptação cinematográfica pelas produtoras DreamWorks e Paramount Pictures, estrelada por Jamie Foxx, Beyoncé, Eddie Murphy, Jennifer Hudson, Danny Glover, Anika Noni Rose e Keith Robinson.




DREAMGIRLS levou anos até receber uma montagem profissional fora da Broadway, o que finalmente ocorreu no final de 2016, quando uma versão do espetáculo foi instalada em Londres. Desde então, o público brasileiro passou a ter esperanças de vivenciar o show ao vivo. A espera chegou ao fim no dia 31 de julho, quando o musical estreou no Teatro Santander, em São Paulo  — e desde então vem acumulando elogios e sessões cheias.

A versão nacional conta com um elenco de 25 artistas, sendo as protagonistas: Samantha Schmütz no papel de Lorell Robinson; Letícia Soares como Effie White; e Laura Castro interpretando Deena Jones, as integrantes do trio fictício The Dreamettes. O cantor e compositor Toni Garrido se reveza com o ator e humorista Robson Nunes como Curtis Taylor Jr., personagem inspirado no fundador da Motown, enquanto Reynaldo Machado dá vida a Jimmy Early, figura influenciada por grandes nomes do R&B como James Brown e Little Richard.

No último domingo, 23/11, Guilherme Góes, representante da Hedflow, teve a oportunidade de conferir o espetáculo.



“Showbiz… é só showbiz”



A superprodução acompanha a trajetória de um grupo de cantoras afro-americanas nos Estados Unidos dos anos 1960 em busca do estrelato: as Dreamettes, trio fictício inspirado no The Supremes, grupo emblemático da gravadora Motown. A narrativa segue as integrantes — Effie White, Deena Jones e Lorrell Robinson — desde os primeiros passos como backing vocals até a ascensão no disputado cenário da soul music e do R&B entre as décadas de 1960 e 1970. À medida que o talento das cantoras se destaca, sua popularidade cresce, e logo o trio chama a atenção de Curtis Taylor Jr., um empresário ambicioso determinado a transformá-las em estrelas. Porém, junto com o sucesso, surgem tensões invisíveis ao grande público: abusos empresariais, perda de autonomia artística e conflitos internos.

Embora DREAMGIRLS aposte fortemente no humor e dinamismo musical, o espetáculo também toca em temas sensíveis e profundamente reais. Na cena de abertura, as protagonistas chegam atrasadas ao show e quase têm sua apresentação cancelada — uma realidade compartilhada por muitos músicos independentes que precisam conciliar a arte com outras formas de sustento. Além disso, a montagem aborda o racismo estrutural presente na sociedade americana da época: artistas negros eram proibidos de se apresentar em determinados espaços frequentados majoritariamente por brancos, como hotéis em Miami ou cassinos em Las Vegas, sendo julgados por sua cor e não por seu talento. No mês da Consciência Negra no Brasil, essa discussão se torna ainda mais urgente e relevante.

Outro eixo central da narrativa é a desconstrução do glamour associado ao show business. Por trás de figurinos reluzentes, turnês e holofotes, há rotinas exaustivas de ensaios, desgaste emocional, rupturas pessoais e profissionais. Em determinado ponto, a relação entre Deena, Lorrell e Effie se torna insustentável, culminando na dissolução do grupo. Intrigas, ciúmes, pressões psicológicas e violência simbólica — e por vezes direta — compõem os bastidores desse universo. O espetáculo evidencia ainda a ganância presente na indústria: o entretenimento é retratado como um negócio, marcado por exploração e interesses financeiros que frequentemente se sobrepõem ao valor artístico e respeito à dignidade humana.



No aspecto técnico, o musical impressiona. Os cenários, figurinos e transições são meticulosos, resgatando com precisão a atmosfera das casas de jazz e dos palcos norte-americanos da época. As músicas são executadas ao vivo por uma banda impecável, tornando a experiência mais marcante e real. Iluminação, coreografia e direção caminham juntas com precisão quase cirúrgica. O elenco canta, dança e atua com domínio absoluto, oferecendo momentos de interação direta com o público — incluindo cenas em que os intérpretes descem do palco e circulam pelo teatro, rompendo a barreira entre artista e plateia e transformando o espetáculo em uma experiência coletiva.

DREAMGIRLS encanta, diverte e emociona, ao mesmo tempo em que provoca reflexões necessárias sobre racismo, carreira artística e os bastidores da indústria do entretenimento. Uma obra relevante, potente e plenamente merecedora de sua aura lendária.

O espetáculo segue em cartaz até 30/11, no Teatro Santander. Vale — e muito — conferir.


SERVIÇO | DREAMGIRLS

Local: Teatro Santander — Complexo JK Iguatemi

Endereço: Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041

Classificação etária: 10 anos, menores acompanhados dos pais ou responsáveis legais.

Data: até 30 de novembro

Horários: Quintas e sextas-feiras, às 20h; Sábados, às 16h e 20h; Domingos, às 15h e 19h

Valores:

VIP: R$ 190,00 meia entrada e R$ 380,00 inteira

PLATEIA SUPERIOR: R$ 125,00 meia entrada e R$ 250,00 inteira

FRISA PLATEIA SUPERIOR: R$ 125,00 meia entrada e R$ 250,00 inteira BALCÃO A: R$ 90,00 meia entrada e R$ 180,00 inteira FRISA BALCÃO: R$ 21,00 meia entrada e R$ 42,00 inteira

BALCÃO B: R$ 21,00 meia entrada e R$ 42,00 inteira

*Clientes Santander têm 30% de desconto nos ingressos inteiros, limitados a 2 por CPF.

Vendas: Internet (com taxa de conveniência): SYMPLA — https://bileto.sympla.com.br/event/102867/d/301585

Bilheteria física (sem taxa de conveniência): Teatro Santander. Horário de funcionamento: Todos os dias das 12h00 às 18h00. Em dias de espetáculos, a bilheteria permanece aberta até o início da apresentação. A bilheteria do Teatro Santander possui um totem de autoatendimento para compras de ingressos sem taxa de conveniência 24h por dia.

Endereço: Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2041.

Por Guilherme Góes

Estudou jornalismo na Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Apaixonado por música desde criança e participante do cenário musical independente paulistano desde 2009. Além da Hedflow, também costuma publicar trabalhos no Besouros.net, Sonoridade Underground, Igor Miranda, Heavy Metal Online, Roadie Crew e Metal no Papel.