Em 1998, o mundo conheceu o anime Serial Experiments Lain. A série não foi apenas mais uma produção de ficção científica — tornou-se uma obra cult que redefiniu aspectos da cultura pop. Criada por Chiaki J. Konaka, Yoshitoshi Abe e pelo estúdio Triangle Staff, Lain se destacou por sua abordagem filosófica e narrativa fragmentada, explorando os limites entre tecnologia, identidade e existência.
A trama acompanha Lain Iwakura, uma adolescente introvertida que começa a mergulhar em The Wired, uma rede virtual semelhante à internet moderna. Conforme se aprofunda nesse universo, as fronteiras entre o mundo físico e o digital se dissolvem. Questões como consciência, privacidade, vigilância, solidão e a própria definição de humanidade entram em discussão.
Assim, a série antecipou debates sobre realidade virtual, redes sociais e identidade digital antes mesmo da popularização da internet banda larga. Ao misturar tecnologia, psicologia, filosofia existencialista, espiritualidade e teorias da conspiração, Lain ousou em um formato extremamente original. Sua influência se estendeu até mesmo para produções ocidentais, como “Matrix” e “Black Mirror”. Quase três décadas após o lançamento, Serial Experiments Lain segue relevante — estudado por fãs, pesquisadores de tecnologia, cibercultura e filosofia.
Porém, além do impacto cultural, a série foi responsável por apresentar ao mundo a banda inglesa Bôa. O grupo é responsável por Duvet, música que se tornou a icônica abertura do anime, considerada por muitos fãs uma das melhores “openings” já feitas.
Entretanto, Bôa está longe de ser um caso de “one-hit wonder”. Formado em 1993, o grupo desenvolveu uma sonoridade marcante, misturando indie rock com elementos eletrônicos, jazz e grunge. Em mais de três décadas de carreira, lançou discos cultuados no underground, como “The Race of a Thousand Camels” e “Get There”. Já em 2024, retornou com Whiplash, primeiro álbum de inéditas em quase 20 anos.
Para promover o novo trabalho, o conjunto iniciou uma turnê internacional — e a América do Sul entrou no mapa. Após apresentações em Lima, Santiago e Buenos Aires, Bôa finalmente fez sua estreia em São Paulo na última terça-feira (25), no palco do Cine Joia, localizado no bairro da Liberdade. A escolha não poderia ter sido mais simbólica: o clube é querido pelo público indie, o bairro é um dos polos da cultura otaku no Brasil e a vocalista Jasmine Rodgers tem descendência japonesa — uma combinação que transformou o show em um encontro de universos.
- Experiência geral e shows
Apesar de ser uma apresentação em pleno dia útil, o público compareceu em peso. Próximo ao horário da primeira atração, ainda era possível ver uma fila extensa se formando ao redor do clube. Mesmo reconhecendo a relevância da banda, era difícil prever que o Bôa seria capaz de esgotar ingressos em uma das principais casas de espetáculo de São Paulo.
Pontualmente às 20h15, Ale Sater e sua banda subiram ao palco com a missão de aquecer uma plateia ansiosa. Conhecido principalmente como vocalista do Terno Rei — um dos nomes mais importantes do indie nacional contemporâneo — o artista apresentou seu trabalho solo. No repertório, canções como “Anjo”, “Ontem”, “Ouvir”, além de outras faixas do EP “Fantasmas” (2021) e do álbum “Tudo Tão Certo” (2024).
Sua música conquistou o público com arranjos baseados em violões, presença marcante de baixo e letras que abordam amor, cotidiano e a transição turbulenta entre a vida jovem adulta e a etapa em que se começa, de fato, a ser um “adulto completo” na “casa dos 30”. Esse tema, aliás, também foi explorado no último disco do Terno Rei (“Nenhuma Estrela”, 2025), especialmente na faixa “32”. Ale ainda presenteou os fãs com um cover de “Sinais”, um dos destaques de “Essa Noite Bateu Com um Sonho”, segundo álbum de sua banda principal — gesto que foi recebido com entusiasmo.

Com o Cine Joia agora completamente lotado, às 21h30, os integrantes do Bôa subiram ao palco e iniciaram o set com “Deeply”, faixa com sonoridade mais voltada ao rock. Logo nos primeiros versos, Jasmine já demonstrava seu carisma — incentivando o público a cantar o refrão. Na sequência, veio “Whiplash”, música que dá nome ao novo disco e traz uma atmosfera mais dançante. A resposta da plateia mostrou que o público brasileiro estava atualizado com o lançamento.
Após as duas primeiras músicas, Jasmine fez uma breve pausa para conversar com a plateia — e, com humor, comentou que passou anos lendo mensagens dos fãs dizendo “Come to Brazil” em suas redes sociais. Em seguida, pegou uma guitarra e apresentou “Get There”, primeira música da noite a provocar histeria coletiva, com o público cantando em coro.
“Essa é para quem se sente bonito… mas também um pouco quebrado.” Assim a vocalista apresentou “Beautiful & Broken”, uma faixa mais lenta e emocional, cuja estética lembra os primeiros trabalhos de Mitski, fenômeno atual do indie alternativo. Para equilibrar o clima introspectivo, “Seafarer” trouxe um peso maior, com refrão explosivo, pensado para ser cantado a plenos pulmões. Em seguida, “For Jasmine” e “A Girl” mantiveram o contraste dinâmico, alternando trechos suaves que rapidamente se transformavam em explosões sonoras. O bloco ainda contou com “Strange Few” e “Welcome”, esta última com forte influência de jazz e grande destaque para a linha de baixo.

No palco, todos demonstraram satisfação por tocar para o público brasileiro — mas o grande centro das atenções era, inevitavelmente, Jasmine Rodgers. Espontânea e luminosa, ela interagia com fãs, dançava, fazia caretas divertidas e parecia absolutamente à vontade, como se estivesse se apresentando na sala da própria casa, e não diante de centenas de pessoas. Em determinado momento, perguntou quem estava fazendo aniversário naquela noite — e dedicou “Drinking” aos aniversariantes. A faixa, executada em versão acústica, transformou o Cine Joia em um mar de luzes de celulares, trazendo um breve clima de “show em estádio” para o Cine Joia. “Frozen” também foi apresentada em versão acústica, com o público marcando o ritmo com palmas. Na reta final, o show engatou uma sequência matadora de faixas do álbum Twilight, incluindo “Angry”, “Elephant” e “Fool”, elevando novamente a energia do público.
Após uma breve saída, o grupo retornou para o encore, iniciando com “Twilight”, seguida da poderosa “Walk With Me” — uma música recente de “Whiplash”, mas que já pode ser considerada como uma das maiores obras do Bôa. Por fim, veio o momento mais esperado da noite: “Duvet”. A faixa — responsável por apresentar a banda ao mundo — levantou a casa em coro uníssono, com Jasmine conduzindo uma versão estendida e participativa, que transformou o momento em algo verdadeiramente inesquecível. Quando o público já começava a se preparar para ir embora, a banda retornou mais uma vez e encerrou a apresentação com “Anna Maria”, agora sim concluindo a noite.

Com carisma, presença de palco, repertório sólido e uma performance emocionalmente intensa, Bôa deixou claro que não é apenas um grupo marcado por um único sucesso, mas uma banda relevante e madura.
Fotos: Flávio Santiago (Credenciado pelo portal On Stage, que gentilmente compartilhou seu trabalho)
Setlist — BôA (São Paulo)
- Deeply
- Whiplash
- Get There
- Beautiful & Broken
- Seafarer
- For Jasmine
- A Girl
- Strange Few
- Welcome
- Drinking
- Frozen
- Angry
- Worry
- Elephant
- Fool
Bis:
- Twilight
- Walk With Me
- Duvet
2º Bis:
Anna Maria
Agradecimento especial: Maria Correia (Heavy Metal Online / Metal no Papel)






























