Kurt Cobain, apesar de ter alcançado enorme sucesso comercial com o Nirvana e se consolidado como uma das maiores lendas do rock, jamais rompeu com suas raízes no underground. Pelo contrário: sempre demonstrou resistência ao status de rockstar. Um exemplo emblemático disso ocorreu durante o MTV Unplugged in New York, gravado em 1994. Enquanto fãs e produtores esperavam a participação de nomes consagrados da época, comoNeil Young ou Eddie Vedder (Pearl Jam), Cobain surpreendeu ao convidar o Meat Puppets, grupo obscuro do cenário independente e então desconhecido do grande público.
Essa postura também se refletiu na forma como Kurt utilizou a popularidade do Nirvana para divulgar bandas independentes. Entre elas, uma em especial chamava sua atenção de maneira quase obsessiva: o trio japonês Shonen Knife. Cobain chegou a descrevê-las como ‘a melhor banda do mundo’, afirmou ter ‘chorado como uma criança de nove anos, como se estivesse vendo os Beatles ao vivo’ e ainda convidou a banda para abrir a turnê europeia do álbum Nevermind.
Formado em 1981, na cidade de Osaka, o Shonen Knife parecia, à primeira vista, um contraste absoluto com o som pesado e melancólico do Nirvana. O trio feminino segue uma estética e uma proposta completamente opostas: roupas coloridas, melodias punk rock com influência direta dos Ramones, acompanhadas de letras que falam sobre animais fofinhos, comidas japonesas e brincadeiras infantis. Mesmo sem alcançar grande sucesso comercial, o grupo construiu uma trajetória sólida, conquistou status cult no underground e mantém uma carreira ativa há mais de quatro décadas.
No último domingo (14), o conjunto finalmente estreou em São Paulo. A apresentação aconteceu na Fabrique Club e foi organizada pelas produtoras Maraty e Powerline. Originalmente, o evento estava marcado para o Cine Joia, no bairro da Liberdade.
Para a abertura, foi escalado o duo rockabilly Morcegula. Formada pela vocalista e baterista Rebeca Li e pelo guitarrista Henrique Badke (Carbona), a banda chamou atenção logo de início por uma proposta curiosa: Rebeca toca a bateria em pé e sem o uso de pratos, solução pouco convencional que, ainda assim, funcionou muito bem ao criar uma base rítmica dançante.
Com um visual obscuro de inspiração gótica, em contraste com a atração principal da noite, a dupla apresentou canções com letras inspiradas em filmes de terror, como ‘Godzilla‘, ‘Ratazanagem‘, ‘Filmes B’ e ‘Noiva Cadáver‘, combinando essa temática sombria a uma sonoridade surpreendentemente divertida e animada. O público acompanhou a apresentação com atenção e curiosidade, respondendo positivamente ao set do duo.

Após uma breve pausa para ajustes no cenário e com cerca de metade da pista ocupada, Naoko Yamano (vocais e guitarra), Atsuko Yamano (baixo) e Risa Kawano (bateria) subiram ao palco e deram início à festa com ‘Konnichiwa’ — ‘olá’, em japonês —, escolha perfeita para abrir o show e dar as boas-vindas ao público. O set seguiu com clássicos dos cultuados álbuns Burning Farm e Let’s Knife, como ‘Twist Barbie’ e ‘Bear Up Bison’, além de ‘Jump Into the New World’, faixa lançada em 2016 e já reconhecida como um dos grandes momentos da carreira do trio.
Em uma pausa descontraída, as integrantes anunciaram que tocariam uma música sobre tacos, mas, ‘em homenagem à ocasião’, decidiram rebatizá-la de ‘coxinhas’. Na sequência, veio ‘Vamos Taquitos’, com o esforço das meninas para pronunciar a palavra em português arrancando risadas e aplausos da plateia. Em outro momento de interação, anunciaram que tocariam uma canção sobre um animal muito popular no Brasil e apresentaram ‘Capybara‘, reforçando a conexão bem-humorada com o público.
O show seguiu de forma leve e divertida, alternando composições sobre animais, como‘I Am a Cat’ e ‘Concrete Animals’, com canções inspiradas na culinária japonesa, como ‘Sushi Bar’, ‘Wasabi’, ‘Green Tea’ e‘Banana Chips‘. No palco, Naoko, Atsuko e Risa demonstravam pura diversão, evidenciando o prazer em executar músicas que celebram temas triviais. Nada excessivamente técnico ou complexo — apenas punk rock direto, espontâneo e extremamente divertido, como deve ser.
Na reta final, o trio empolgou o público com‘Riding on the Rocket’, faixa que teve certa rotação na MTV nos anos 1990, e ‘Buttercup (I’m a Super Girl)’, conhecida por integrar a trilha sonora do desenho As Meninas Superpoderosas, do Cartoon Network. Após uma breve saída, a banda retornou para o bis com um cover de ‘Pinhead’, dos Ramones, e ainda atendeu aos pedidos dos fãs com ‘Lazybone’.
Com visual colorido e letras fofas, o Shonen Knife mostrou, em São Paulo, que encarna com perfeição o espírito do punk: não se trata de virtuosismo, discursos profundos ou pose, mas de se divertir fazendo música. Não foi difícil para o público paulistano compreender, ao vivo, a admiração que Kurt Cobain sempre demonstrou pelo grupo.






























Fotos: Flávio Santiago (credenciado pelo portal On Stage, que gentilmente compartilhou seu trabalho)
Setlist
Konnichiwa
Twist Barbie
Bear Up Bison
Jump Into the New World
MUJINTO Rock
Vamos Taquitos
Afternoon Tea
Capybara
Concrete Animals
I Am a Cat
Sushi Bar
Wasabi
Green Tea
Sweet Candy Power
E.S.P.
Banana Chips
Riding on the Rocket
Pyramid Power
Buttercup (I’m a Super Girl)
Pinhead
Antonio Baka Guy
Lazybone
Agradecimento especial: Maria Correia (Metal no papel / Heavy metal online)
