A quinta edição do festival MEO Kalorama no Parque da Bela Vista, em Lisboa, encerrou os seus três dias de atividades com uma audiência total estimada de 105.000 pessoas e uma taxa de 35% de estrangeiros, vindos principalmente da Inglaterra, da Espanha e da França.

A jornada musical de 2026 foi marcada por uma mescla entre o peso do rock alternativo, a eletrônica periférica e música lusófona típica. Notável foi também o impacto que trouxe a curta e enérgica apresentação do duo canadense Angine de Poitrine, que preparou muito bem o terreno logo no começo do evento para todas as demais atrações principais. O público testemunhou apresentações cativantes, como o pós-punk do Interpol e a catarse performática de Grace Jones, além do famigerado astro pop Robbie Williams. Já a representação da língua portuguesa ganhou contornos históricos com o rap engajado de Criolo, a fusão eletrônica de Amaro & Dino e o espetáculo monumental de Sam The Kid com orquestra e Orelha Negra. Essa celebração da cultura urbana de Lisboa atingiu seu ápice com o coletivo O Ghettão, que arrastou multidões sob os comandos rítmicos dos produtores DJ Nigga Fox, DJ Danifox e DJ Firmeza, injetando o poder do ‘batidão’ e do kuduro eletrônico nas veias do festival.


No entanto, após abertura do Turnstile (a jovem sensação do ‘hc americano geração z’), o encerramento do palco principal ficou a cargo dos ilustres californianos do Deftones, cuja apresentação trouxe à tona tanto a potência de seu legado musical quanto as contradições ideológicas e corporativas que cercam a banda na atualidade. A atual formação ao vivo assenta em um sólido núcleo de músicos recrutados da cena alternativa e industrial estadunidense, fundamentais para segurar a densa parede de som da banda na promoção do álbum Private Music (2025). O baixista Fred Sablan, natural de Cupertino, Califórnia, traz na bagagem uma forte escola do rock gótico e industrial, tendo colaborado com artistas como Chelsea Wolfe e Peter Hook and the Light. Na liderança das guitarras está Lance Jackman, originário de Sacramento, conhecido pelo seu trabalho em bandas de rock alternativo locais como Eightfourseven e Horseneck. A fechar o trio de apoio em palco, o também veterano de Sacramento Shaun Lopez — aclamado como guitarrista da banda de post-hardcore Far e parceiro de longa data de Chino Moreno no projeto eletrónico ††† (Crosses) — assume a terceira guitarra rítmica, recriando as texturas de ambientações sonoras mais imersivas, características da banda. Esta nova fase do coletivo reflete uma transição profunda, na qual os músicos de apoio deixaram de ser meros figurantes de estrada para se tornarem pilares criativos e identitários da banda em estúdio e nos palcos internacionais. Fred Sablan entrou em 2022 para substituir Sergio Vega após divergências contratuais, enquanto Lance Jackman e Shaun Lopez foram integrados para suprir de forma definitiva as ausências e a falta de compromisso do guitarrista original Stephen Carpenter nas digressões fora dos Estados Unidos. O entrosamento e o peso técnico demonstrados por este trio de veteranos estabilizaram a dinâmica interna do grupo, permitindo manter a sua relevância musical praticamente intacta juntamente do original Abe Cunningham, na bateria, e de Frank Delgado no teclado e nas turntables desde a década de 90.

O Deftones subiu ao palco em meio a uma turnê fora dos Estados Unidos que escancara uma fratura interna: a ausência do guitarrista original Stephen Carpenter. Substituído nos palcos internacionais, o músico optou por não viajar, mas o que realmente gera desconforto na comunidade musical são suas recorrentes declarações de cunho negacionista. No podcast Tin Foil Hat with Sam Tripoli, mais precisamente no episódio 393, Carpenter afirmou acreditar que a poliomielite nunca foi erradicada; questionando a efetividade da vacinação. Propagar esse tipo de pensamento é de uma gravidade extrema em tempos em que a humanidade ainda recolhe os traumas de uma pandemia de coronavírus que ceifou milhões de vidas globais — mortes que, comprovadamente pela ciência, poderiam ter sido massivamente evitadas com prevenção, isolamento e imunização coletiva. Não bastasse isso, o guitarrista também declarou a sua crença na ‘teoria do simulismo’ e na esdrúxula tese da Terra Plana, ignorando por completo todo o legado de estudos, pesquisas e comprovações científicas estabelecidas desde o século XVI que fundaram a astronomia e a física modernas.

Essa postura alienada parece ecoar na forma como a banda lida com com os trabalhadores da cultura. Em Lisboa, o Deftones selecionou apenas cinco grandes veículos de mídia para fotografar a sua apresentação, proibindo sumariamente o trabalho de todos os outros profissionais de fotografia que passavam os dias cobrindo o festival, devidamente credenciados pela própria organização do MEO Kalorama. Trata-se de um claro cerceamento do trabalho de registro de imagem profissional. Essa blindagem se estendeu à palavra escrita: a Hedflow buscou contato com a assessoria de imprensa da banda através da gravadora Warner; o pedido foi repassado à encarregada de imprensa oficial da turnê, que retornou com a resposta de que o grupo havia decidido não conceder nenhuma entrevista durante a turnê europeia. Essa recusa em dialogar reflete uma gritante falta de coragem e de posicionamento por parte dos membros de uma banda de alcance mundial, justamente em um momento histórico em que o planeta sangra diante de múltiplas guerras, crises humanitárias e genocídios televisionados em tempo real, onde a arte deveria servir como ferramenta de denúncia e conscientização.

Se nos bastidores o clima é de isolamento institucional, a plateia do Parque da Bela Vista revelou um fenômeno contemporâneo moldado pelas engrenagens do consumo digital. Era visível a quantidade massiva de adolescentes, majoritariamente garotas, vestindo camisetas estilizadas do Deftones. O fenômeno é fruto direto de uma tendência estética gótica, emo e scene repaginada e massificada pelo TikTok. Esse ‘boom’ de apelo meramente visual ganhou força impulsionado pelo algoritmo a partir do resgate de ‘Back to School’, single de pop-rock lançado no começo dos anos 2000 como parte da reedição do álbum White Pony (2000). Na época, a faixa foi uma exigência comercial da gravadora para aumentar o alcance popular da banda nas rádios e canais de clipes, como a MTV. O videoclipe desse single, com parte ambientada em um pátio estudantil, mostra garotas com maquiagens pesadas e roupas que ditavam a moda alternativa daquele período. Duas décadas depois, o TikTok promoveu um revival estético disso em que o visual e o pertencimento a uma subcultura de vestuário se tornaram mais importantes para essa nova onda de seguidores do que a própria discografia ou toda a bagagem sentimental histórica do grupo.

Cronologicamente, o concerto em Lisboa foi estruturado como uma antologia de sua carreira, passeando por diferentes eras. A abertura com ‘Be Quiet and Drive (Far Away)’ e a sequência com ‘Swerve City’ e ‘Around the Fur’ ditaram a urgência do show, alternando o peso bruto com passagens atmosféricas. No balanço das eras, a era clássica do final dos anos 90 e início dos anos 2000 acabou prevalecendo em número de faixas tocadas e no impacto gerado no público. Músicas do cultuado White Pony (2000) e do agressivo Around the Fur (1997) formaram a espinha dorsal da apresentação, ladeadas por incursões em álbuns posteriores como Koi No Yokan (2012), de onde veio ‘Swerve City’, Diamond Eyes (2010), representado por ‘Rocket Skates’ e ‘Risk’, e o celebrado Gore (2016). Os ouvintes também foram contemplados com a tríade melódica de ‘Cherry Waves’, do álbum Saturday Night Wrist (2006), ‘Feiticeira’, ‘Korea’ e a densa ‘Rosemary’. O setlist ainda abriu espaço para experimentações recentes através de ‘my mind is a mountain’, ‘locked club’ e ‘infinite source’, além do lirismo sombrio de ‘Entombed’ e ‘Sextape’, antes do encerramento oficial com a clássica ‘My Own Summer (Shove It)’ e a eletrizante pancada das novas: ‘milk of the madonna’, trazendo o ápice da magnificência dessa musicalidade emblemática entre peso e melodia. Aliás, as projeções por detrás do palco e o jogo de iluminação estão fascinantes como complemento ao espetáculo audiovisual, memorável e absolutamente simbólico; tocante, estimulante e instigante como um todo. Destaque para o uso de imagens de um clássico do cinema alternativo dos anos 70, ‘The Holy Mountain’, durante ‘my mind is a mountain’ com complementos semióticos a olhos mais atentos.

Para o bis, a banda guardou bem em seu arsenal sons-chave. A introdução hipnótica de ‘Change (In the House of Flies)’ causou o clamor esperado (com Chino subindo escadas para o centro do palco, tocando guitarra e cantando do alto, com a imagem de um sol de tonalidade avermelhada a representar um fator de transformação – ‘change’ – crucial à vida), seguida pela crueza da arrastada clássica noventista ‘Lotion’. O desfecho catártico do festival ocorreu com ‘7 Words’, música que ironicamente carrega uma das maiores controvérsias da banda. O vocalista e letrista Chino Moreno deu declarações criticando a própria composição, afirmando que tinha apenas 16 anos quando a escreveu e que hoje a acha “imatura”. Trata-se de um distanciamento artístico questionável, dado que a faixa continua sendo uma das preferidas dos ouvintes do Deftones ao redor do mundo. Em seus versos raivosos, a letra dispara contra a opressão e a opulência material: “eu pertenço onde eles estão, porque não podemos recuperar essas vidas. Existimos para agradar/entender. O amor odeia pretos, sombras e todos os jogadores. Senhor Porco, eu poderia ver? Com certeza você terminou de destruir a dignidade de meus irmãos. E para o júri não pode haver volta, isso é tudo. Minha pele parece colorida, isso significa que estou ‘queimado’?” Mais do que uma revolta juvenil, a composição enaltece as raízes miscigenadas e a ancestralidade latina e operária de Chino Moreno, gritando contra o racismo estrutural e o condicionamento de classe ao repetir o refrão cortante: “Suguem, suguem, suguem! Estão ferrando a minha cabeça!”


O título ‘7 palavras’ vem do protocolo iniciado em 1966 pelo caso Miranda. O procedimento surgiu após a decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos no caso Miranda versus Arizona e tornou-se uma conduta policial padrão dos Estados Unidos ao prender qualquer pessoa dizendo “you have the right to remain silent”, “você tem o direito de permanecer calado(a)” em português. Essa carga de revolta anti-opressão ainda funciona na prática: ‘7 Words’ foi, sem sombra de dúvidas, o momento de maior empolgação, rodas de pogo e comunhão em catarse raivosa e frenética do público presente nessa noite lisboeta de domingo.

Assistir ao encerramento do MEO Kalorama 2026 deixou, entretanto, uma reflexão incômoda. O Chino Moreno de 16 anos de idade, periférico e consciente de sua etnicidade, possuía muito mais atitude de cunho sócio-político, urgência cultural e noção de sua posição no mundo do que o artista que se apresenta hoje em dia. Transformado em um senhor estadunidense de 53 anos de idade, o vocalista lidera uma engrenagem monetária que prefere o silêncio corporativo, tolera o negacionismo científico em suas fileiras e renega suas letras mais viscerais, enquanto uma nova geração de seguidores consome a banda impulsionada meramente por shorts de redes sociais como uma simples tendência emo repaginada.


Fotos e imagem destacada por Victor Souza.




Instagram: @victorsouzacst1

Por Fernando Araújo

Editor.